31 ANPED

De 19 a 22 de Outubro de 2008, ocorreu em Caxambu (MG) a 31ª Reunião Anual da ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. No site do evento é possível acessar os Trabalhos apresentados nos diversos GTs e GE, pôsteres, resumos dos minicursos e trabalhos encomendados, além de outros materiais.

Seguem (com mais de 1 ano de atraso!) anotações do que assisti por lá. Ainda pretendo ajeitá-las um pouco – quando estiver tudo ok, tiro esta observação daqui.

19/10/08

Abertura

20/10/08

09:00 – 13:00 – GT16 – Educação e Comunicação

Uma das coisas bacanas das sessões na Anped é que havia ao redor de 30 minutos para as apresentações dos trabalhos e assim restava tempo para perguntas e debates.

Um estudo sobre mídia, educação e cultura jovem: quando “ter atitude” é ser diferente para ser igual
Sarai Patrícia Schmidt (FEEVALE)

Educação, comunicação e crítica da linguagem – interpelações
Cleber Gibbon Ratto (Centro Universiário Metodista – IPA). Leu seu pesado artigo, que cita bastante Nietzsche.
Nas discussões, falou-se sobre o movimento punk, anti-consumo, mas que inspira desfiles em Paris; a vergonha em relação à morte; e que saúde demais faz mal – ética da convalescência.

Nem inimiga, nem aliada: percepções sobre a mídia na prática docente
Sandra de Fátima Pereira Tosta (PUC-Minas)
Ivna Sá dos Santos (PUC-Minas)
Durante a apresentação, foram lidas as citações dos slides. Algumas referências teóricas da pesquisa: BARBERO, Jesus Martin; OROZCO, Guillermo Gómez; e FREINET, Celestín.

Rádio e a TV por meio da web: possibilidades de uma nova formação
Henrique Garcia Sobreira (UERJ)
Carlos Alexandre Pereira de Moraes (UERJ)
Hellen Pereira Ferreira (UERJ)
Interessante experiência de canal interativo de tv ao vivo – uma câmera na mão, uma aula na cabeça! Rádio e tv semi-clandestinas. Convidei o grupo para participar do 7º SENAED.

14:00 – 17:00 – GT16 – Educação e Comunicação

Criança e cinema no exercício estético da amizade
Fabiana de Amorim Marcello (ULBRA), muito simpática e solta para falar, bastante expressiva, conseguiu prender a atenção do público. Leu o artigo e acabou falando de filmes sem mostrar cenas.
Criança – potência criadora (Nietzsche e Foucault). Criança como centro, em que a amizade é importante. Amizade – espaço que se constrói, em que a criança se afirma. Criança com criação, para além dos espaços familiares.

Os óculos de Win Wenders e o olhar de Bavcar: reflexões sobre a feitura e sobre os usos da imagem
Rita Marisa Ribes Pereira (UERJ). Ao contrário dos anteriores, ficou de pé, sem apoio de slides de powerpoint, e não leu o artigo.
Por isso, discussão sobre para que serve a imagem em pesquisa, sobre a ditadura da imagem, sobre as imagens que gravamos mas nunca são vistas. Narciso morreu afogado porque não percebeu que entre ele e a imagem havia água. Falou sobre os filmes A Janela da Alma (em que aparece um fotógrafo esloveno que é cego) e O Céu de Lisboa, de Win Wenders.

Há um elefante no meio da sala
Márcia Regina Xavier da Silva (CAP-UFRJ). Leu os slides, alguns com muito texto, cada vez menor.
Fez uma leitura de Elefante de Gus Van Sant.

Como proceder de modo que tenhamos certeza que seremos surpreendidos em nossa própria pesquisa – cinema e cartográfias em educação: co-implicações sensíveis
Sammy William Lopes (UFES). Apresentou slides com texto branco em fundo preto, ficou legal.
Cinema x cartografia. Cinema pode ser útil para manter-nos no encontro, outra forma de pensar que provoca telos, sem retornar ao sistema de representação.

17:00 – 19:00 – Minicurso GT19
O uso do vídeo e da internet para estudar a aprendizagem e o ensino
Arthur Belford Powell (Rutgers University – EUA)
O minicurso foi composto de 2 encontros, sendo o segundo no dia seguinte, 21/10. Foi muito legal e bastante prático.
O uso da câmera, dos planos etc. implica uma teoria. No exemplo que estudamos, foram utilizadas 2 câmeras – uma para visão macro e outra micro.
Fizemos um exercício de transcrição de um vídeo em que alunos tentavam resolver um problema de matemática. A transcrição de um vídeo, contudo, não o representa 100% – há coisas que não podem ser vistas na transcrição. Depois da transcrição vem o debriefing, uma sessão para conversar sobre o que aconteceu. O objetivo é fazer uma descrição sem interpretação, objetiva. Arthur pediu então para tentarmos descrever o que acontecia no vídeo, enquanto os alunos tentavam resolver o problema. As descrições apresentadas pela classe foram diferentes – mas descrição não deve ser interpretação! Depois da descrição, vem a fase de identificar e transcrever os eventos críticos, em que a trajetória para resolver o problema sofre uma mudança e a energia do grupo sobe. Por fim, deve-se codificar e construir o enredo, escrever e compor a narrativa.
Foi mencionado o Robert B. Davis Institute for Learning (RBDIL).

19:00 – 20:00 – pôsteres e lançamentos
(e uma senhora Feira de Livros)

21/10/08

09:00 – 13:00 – GT16 – Educação e Comunicação

Crianças e televisão: hábitos televisivos e diálogo familiar
Rita Rezende Vieira Peixoto Migliora (PUC-Rio). Leu um pouco os slides e estava um pouco nervosa.
Pesquisa interessante da PUC-RJ cujos objetivos eram determinar o perfil, qual é o público, o que veem etc. As crianças não ficam sozinhas em casa assistindo televisão.

Formas de olhar: atenção e dispersão na relação entre criança e televisão
Claudia Cristina dos Santos Andrade (UERJ)
Outra pesquisa, que abordou a atenção e dispersão entre criança e tv. Foram feitas observações de crianças assistindo tv: novela, Jimmy Neutron, futebol, clip MTV, Malhação etc., e avaliada a aceitação/rejeição dos programas. Em um dos comentários, por exemplo, foi destacado que foi dada muita autoridade para uma empregada, e a pesquisa deriva daí análises sociais.

Princípio, experimentação e intuição: lendo as imagens-sons dos jogos eletrônicos
Cláudio Lúcio Mendes (UEMG), autor do livro Jogos Eletrônicos: Diversão, Poder e Subjetivação. Leu slides, mas com o texto na mão, e mostrou jogo com som.
Como em muitos outros trabalhos, usou como referência Deleuze, falando sobre imagens-sons e seu devir em jogos. Sem som, os jogos eletrônicos mudam completamente. Ele diferenciou (conceitos dele) imagens-sons de preenchimento (que ocupam o espaço do jogo) e imagens-sons súbitas (cena nova que liga o jogador, não o deixa desconectar).
Na discussão, falou-se dos lares com tvs, escolas sem tvs. Grande maioria dos professores considera essa mídia (os games) perniciosa para o aprendizado. Claudia, p.ex., colocou em dúvida se a escola é o lugar da apropriação desses momentos sociais, como jogos eletrônicos. Cláudio, referindo-se ao seu livro que aborda como os jogos eletrônicos educam, chamou a atenção para o dinamismo e a criação nos jogos, que dão um banho na escola. Precisamos de novos conceitos. Meu Games em Educação: como os nativos digitais aprendem só foi publicado meses depois.

Reunião do GT

14:00 – 17:00 – Sessões Especiais (não participei de nenhuma)

17:00 – 19:00 – Minicurso GT19 (continuação do dia anterior)
O uso do vídeo e da internet para estudar a aprendizagem e o ensino
Arthur Belford Powell (Rutgers University – EUA)
Foram mencionados Virtual Math Teams (VMT) Project e o e-Math project.
Foi apresentado um vídeo, feito em um ambiente virtual de aprendizagem, com alunos trabalhando a distância na tentativa de resolução de um problema matemático – muito legal! O AVA tinha lobby (porta de entrada), chat (com desenhos desenvolvidos em grupo) e wiki (salas com gravações do que foi feito). Em sala em geral são 3 ou 4 alunos do ensino médio, que utilizam o AVA no horário das aulas; os problemas não são da disciplina e não são discutidos em sala de aula; o ambiente registra o raciocínio matemático, a construção do desenho etc. (nada deve ser feito em papel). A participação e a colaboração acaba sendo muito espontânea. O grupo está desenvolvendo um modelo para analisar a resolução de problemas em um AVA – um trabalho fascinante.

19:00 – 20:00 – Lançamentos

20:00 – 22:00 – Sessão Conversa – Políticas Atuais de Educação a Distância
Coordenação: Antônio Álvares Soares Zuin (UFSCar)
Vani Moreira Kenski (USP) repetiu um chavão que já nos acostumamos a ouvir: devemos colocar a tecnologia em seu devido lugar, em nome de uma educação mediada por tecnologia (cf. meu Educação, não Tecnologia, e para as próximas semanas prometo um artigo sobre o tema). Apresentou 4 modelos: universidade corporativa, universidade aberta a distância, work-based learning e educação sem fronteiras (transnacional). Lembrou a importância dos Certificados da Microsoft, p.ex. O Brasil foi o último país com mais de 100 milhões de habitantes a criar sua Universidade Aberta (apesar de que, como sabemos, a nossa UAB não é exatamente uma universidade aberta!).
Vani falou também sobre mundos virtuais e então disse que, no Brasil, achamos demais usar o Second Life, mas ele não tem nenhuma preocupação educacional, e existem mais de 100 mundos virtuais. Ora, mas quem achamos isso no Brasil? Quem efetivamente utiliza o Second Life com objetivos pedagógicos em nosso país, além p.ex. da Unisinos? E outros mundos virtuais?
Vani falou ainda do FUST – Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicação.

(Octavio?) Iani falou sobre a globalização.

Luis (que substituiu um palestrante que faltou, então faltou o sobrenome!) falou sobre a nova CAPES, a CAPES do bem, espaço para educação básica. A educação básica na CAPES está dividida em 2 diretorias, presencial e a distância.
O censo não consegue medir disciplinas oferecidas nos 20% permitidos a distância. O que tem sido oferecido nos 20%? Há políticas das instituições?
As tecnologias não determinam a sociedade, mas incorporam discursos sociais e políticos.
Enquanto se discute a formação de professores, já se implementa numa velocidade muito rápida a formação de professores pela UAB.

Nas minhas anotações agora, as apresentações se misturam à discussão e às minhas reflexões.
O número de alunos na Universidade Aberta do Paquistão deve ser tomado como isolado, em função da população.
O tecnicismo pedagógico lembra do risco da ditadura militar. A SEED adotou normas propostas pelo Banco Mundial. Ref. a EaD: política e práticas. Polos da UAB foram montados em função do modelo da lógica do capital internacional, para compra de equipamentos.
O presencial é excludente, não tem lugar para todos, para quem não pode ir à escola naquele horário etc.
A EaD não precisa ser com tecnologia, pode ser com manuscrito. Pode ser via áudio. EaD por material impresso seria possível no Brasil, mas não interessa ao financiadores das máquinas.
Ref. ao Processo de Bologna (abordado logo abaixo).
O modelo veio de encomenda, enfiado goela abaixo, sem discussão.
Vani teve que defender a EaD.
Neotecnicismo pedagógico.

22/10/08

09:00 – 13:00 – GT16 – Educação e Comunicação

A problemática do tempo nos programas de formação docente online
Lucila Maria Pesce de Oliveira (PUC-SP)
A querida Lucila começou com críticas a alguns modelos de EaD. Reforma para empregabilidade na EaD, competências e habilidades, representam a consolidação do capitalismo tardio. A EaD seria assim o SUS da educação.
Ela explorou a construção social do tempo – tempo cíclico, tempo vinculado à consciência, tempo existencialista (Heidegger), tempo dos deuses, tempo dos corpos, tempo das máquinas (indústria), tempo dos códigos (informação). No capitalismo, não vivenciamos o tempo kairológico. A música é tocada mais rápida. Consciência coisificada. A proposição temporal está alijada do mundo da vida dos educadores em formação. A formação dialógica estaria entre chrónos e kairós.
Sugestões – processos de formação online – manter o tempo da graduação.

O uso do Second Life como ambiente virtual de aprendizagem
João Mattar (Universidade Anhembi Morumbi)
No debate, Henrique disse que a EaD está nas mãos do mal e Marco Silva questionou a minha previsão de que os AVAs como o Moodle ficarão desertos (de alunos), porque no fundo são um espaço de celebração para o nosso (dos educadores, imigrantes digitais) encontro com o virtual.
Faço uma atualização do que aconteceu no Second Life depois deste texto em um Apêndice no meu Games em Educação: como os nativos digitais aprendem.

Como professores e alunos percebem as tecnologias de informação e comunicação nos cursos de licenciatura
Valdinei Marcolla (UFPel)
A tecnologia permite que você vá além do espaço da sala de aula. Fissurados em tecnologia agrega um grupo pequeno, não todo o grupo escolar. Observam-se dificuldades no uso dos recursos tecnológicos da instituição. O não-gosto está muitas vezes ligado ao não-saber. Citação de um professor de filosofia – para trazer o caos – computador traz o caos à filosofia.

Avaliar a aprendizagem na educação online: a transposição de procedimentos presenciais e a dinâmica específica da web
Isabel Andréa Barreiro-Pinto (UNIABEU)
Marco Antônio Silva (UNESA)
Algumas propostas de Jussara Hoffmann para a avaliação presencial poderiam ser utilizadas na educação online. Avaliação negociada, processual, envolve autonomia e singularidade. Hoffmann, Luckesi e Esteban – avaliação a serviço da aprendizagem, avaliação diagnóstica para reestruturação do fazer docente, avaliação processual, negociação. No caso das rubricas, devemos usar modelos gerais para cada trabalho?
Online, você pode avaliar individualmente e em grupo o progresso do trabalho, o que presencialmente não é possível.
Podemos pensar em diferentes rubricas – avaliação do professor, auto-avaliação, avaliação de trabalhos em grupos, avaliação docente.

Debate.
Como treinar para o uso pedagógico das tecnologias? O uso pessoal não garante o uso pedagógico das tecnologias.
Hoffmann fala de um tripé de avaliação: mediação, multiplicidade e dialógica (bidirecionalidade).
Falou-se também de cibercultura, interação, inclusão cibercultural, usar fóruns, chats etc.
E também da necessidade de utilizar as tecnologias para a produção de conhecimento, não apenas pesquisa.

14:00 – 17:00 – Sessão Especial – O processo de Bolonha, globalização da educação superior e a produção do conhecimento na universidade
Coordenador: Ralph Ings Bannell (PUC-Rio)

Susan L. Robertson (University of Bristol-Inglaterra)
Referências à Convenção de Lisboa (1997) e Declaração de Sorbonne (1998).
Processo de Bologna – distribuir marca/selo de qualidade, dar poder para projetar a Europa no ensino superior ao redor do mundo para competir com Japão, Estados Unidos e China, ou uma leitura mais soft – para Susan, é tudo isso. Difundir normas para África, Oriente Médio, Ásia Central etc. Reação dos Estados Unidos e Austrália.
Poderíamos ver aqui um novo poder imperial, usando laços coloniais? Impor um sistema de qualificação para o mercado global? Cooperação ou imperialismo?
Para Susan, trata-se de um processo político cheio de contradições.

Belmiro Gil Cabrito (Universidade de Lisboa-Portugal)
Mobilidade da força de trabalho e empregabilidade, comparabilidade entre diplomas (o que é capaz de fazer). Diferentes Europas e diferentes culturas. Mudanças na estrutura do ensino superior pós-Bologna. Após – habilidades e competências. Igualar o tempo para graduação e pós. Estado só contribui agora com os 3 anos de graduação, fora isso, as instituições cobram anuidades ou vendem os seus serviços.
Bologna vai ser um êxito para os governos que estão em crise – privatizar a educação.
Vários alunos não farão pós, pois não têm condições, não há intenção de tornar o ensino mais justo.
Risco de falência de instituições de ensino superior.
Separação entre instituições de excelência e de mão-de-obra.
Declaração de Bologna promove o contrário daquilo a que se propõe.
Competição interna: Reino Unido, Alemanha e França fixam pós.
Declaração de Bologna – a serviço do capital europeu, não do povo português.

Ari Paulo Jantsch (UFSC)
Leu seu texto, em defesa da pesquisa teórica na universidade, que não deve ser reduzida ao mercado. Defendeu a liberdade da universidade pública, sem tutela, com pesquisa livre e teórica. Ou universidade pública, ou derrota da teoria, com pesquisa burocrática, movida por critérios meramente mercadológicos, barbárie intelectual. Comparou os mestrados acadêmicos com os mestrados profissionalizantes.

17:00 – 20:00 – Assembleia Ordinária
A Assembleia aprovou um documento por unanimidade (nem deu tempo de entender o que estava acontecendo e levantar a mão) contra a EaD.
Além disso, houve uma longa e acirrada discussão sobre manter o evento em Caxambu ou levá-lo para Salvador, mas a proposta pela manutenção venceu.

Também fiz uns vídeos de “terror” por lá:

Estou trabalhando em vários outros vídeos, logo coloco por aqui. E, é claro, quem quiser complementar ou corrigir alguma coisa, sinta-se à vontade.

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2 respostas a 31 ANPED

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