V ESUD & 6 SENAED

Depois de passar o feriado no Vale dos Vinhedos (que descrevi fragmentariamente no Twitter – mas ainda coloco por aqui um post mais completo), cheguei a Gramado para o V ESUD & 6º SENAED, organizado conjuntamente pela UNIREDE – Associação Universidade em Rede e a ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância.

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O evento foi realizado no Centro de Eventos da UFRGS/FAURGS, de 22 a 25 de abril de 2008. Segue um resuminho do que eu assisti.

TERÇA – 22/4
Abertura da Secretaria, inscrições e minicursos (mas desta vez não participei de nenhum)

À noite, houve a sessão de Abertura.

Em seguida, uma palestra Magna: Análise da Política e Educação a Distância, com o Prof. Carlos Bielschowski, Secretário de Educação a Distância do MEC.

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Ele mostrou os dados do crescimento da EaD no Brasil, fez uma comparação entre alunos presenciais e a distância e defendeu que o crescimento da EaD tem que ser acompanhado do crescimento da qualidade.
Afirmou também que o MEC está desenvolvendo um sistema de acreditação para a EaD, e que a a Capes vai começar a avaliar projetos de mestrado de inequívoca qualidade acadêmica.
Disse também que o PAR – Plano de Ações Articuladas tem oferecido capacitação para professores de educação básica, e que a idéia é que esses professores se tornem alunos permanentes da UAB – Universidade Aberta Brasileira.
A UAB tem hoje 52.000 alunos e privilegia um modelo de EaD semipresencial.

Por fim, um coquetel!

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Conheci o Walter pessoalmente, que fez também uma cobertura muito legal do evento. As fotos neste post, com exceção da minha palestra, foram tiradas por ele – não levei a máquina desta vez.

Fui ainda jantar com uma turma bacana.

QUARTA – 23/4
9:00-10:30 – Painel: Experiências de Gestão da EAD

Barney N. Pytiana – UNISA – University of South Africa (por videoconferência), apresentou o modelo de EaD utilizado na Universidade da África do Sul, com pólos presenciais, e do sistema de avaliação da UNISA. Ele encara os pólos como centros de learner support: como o aprendiz é o centro do processo, ele não pode estar totalmente sozinho. Assim, o processo de aprendizado deve ser socializado.

Sérgio Roberto Kieling Franco – UNIREDE, falou sobre a gestão da EaD no Brasil. O Brasil optou por um modelo bimodal, com instituições que oferecem tanto educação presencial quanto a distância. Ele discutiu um assunto muito interessante: os possíveis vínculos institucionais da EaD. Que tipo de órgão a EaD deve ser: gestor ou realizador? E a que unidade deve estar subordinado, ou deve ser um órgão à parte na instituição?

Por fim, falou Reinaldo Centoducatti – UFES.

11:00-12:30 – Mesa Redonda: TV Digital e a EaD – Será que a TV Digital vai Acescentar algo à EAD

Wilson Azevedo – AQUIFOLIUM – participou através de videoconferência, questionando a expectativa exagerada que tem sido depositada na TV digital, face ao crescimento do acesso à Internet no país.
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Fernando Antonio Crocomo – UFSC, afirmou que a alta definição e a interatividade técnica não significam que a TV digital gerará mais interação – isso dependerá de como utilizarmos os recursos para a EaD. Lembrou também da possibilidade de diálogo, o que já é privilegiado na TV tradicional, mas sem retorno.

Antônio Carlos de Jesus – UNESP/BAURU, reclamou que não estão sendo feitas experimentações com a TV digital em educação. Segundo ele, os educadores não responderam adequadamente ao convite público feito pelo governo. Segundo ele, o governo tem deixado claro que a TV digital teria nascido exclusivamente para atender à demanda educacional. Alguns canais serão obrigatoriamente educacionais, de acordo com a legislação. Para ele, ainda não há recursos humanos adequados para a TV digital, já que os perfis dos profissionais serão diferentes da TV tradicional. Defendeu ainda que a TV digital terá um caráter mais regional do que nacional, ao contrário da TV tradicional. Para ele, a TV digital se caracteriza como uma convergência de mídias. Alguns tipos de interatividade da TV digital não interessam à TV comercial, já que é muito caro mudar um roteiro, o final de uma novela etc. O processo de produção na TV digital é um assunto importante, que mereceria outra sessão.

14:00-16:00 – Diversas opções, e eu escolhi:
Mesa Redonda: Aprendizagem na Web 2.0, moderada por André Genesini – SENAC/SP

Regina Helena Ribeiro – SENAC/SP começou falando sobre a experiência do SENAC com o Second Life.

Ivete Palange – SENAI/SP, instituição que também está entrando no Second Life, mencionou uma definição interessante de Web 2.0: entregar a chave do hospício para os loucos.

Eliane Schlemmer – UNISINOS / RICESU comentou sobre a experiência recente da criação da ilha da RICESU no Second Life. Ela lembrou que Second Life foi um boom, mas os mundos virtuais já são muito antigos. A Unisinos utiliza há bastante tempo o Active Worlds, que não tem moeda, não tem a lógica capitalista do SL. Lembrou também que a web 2.0 e muito mais uma atitude que uma tecnologia.
Ela fez também uma afirmação que me encafifou: ninguém inova naquilo que não conhece, é preciso conhecer as ferramentas. Se isso de um lado defende que temos que dominar as tecnologias para produzir resultados satisfatórios, de outro também pode funcionar no sentido contrário, nos afastando dos testes com as novas tecnologias. Talvez seja possível pensar que a inovação possa ocorrer também nos níveis iniciais de domínio das tecnologias, ou até que cresça, em função do crescimento do domínio.
Ela (acho) lembrou também que não apenas o aluno, mas o professor também precisa desenvolver a autonomia.

Andrea Filatro – USP questionou a utilização da Web 2.0 da perspectiva do design instrucional.

Houve uma preocupação geral no debate com a formação de professores e com as maneiras de fazer as pesquisas chegarem na ponta. Foi lembrado também que no virtual, a comunidade termina, mas continua depois da aula.
Eu fiz algumas perguntas.
Penso que repetimos muito, sem reflexão, a tese de que o virtual não pode reproduzir o presencial. Qual é o grande problema de repetir o presencial? E, aliás, é impossível repetir o presencial no virtual, ou no Second Life por exemplo. Eliane lembrou muito bem que a questão principal não é a reprodução do presencial, mas da forma de dar aula no presencial, com o professor falando e os alunos ouvindo. De qualquer maneira, um avatar sentar e falar, enquanto os outros ouvem (enquanto também participam do chat de texto com perguntas, comentários etc.) já é uma situação muito muito distante da simples aula expositiva presencial. Há muitos outros recursos em jogo. Não me parece que devamos medir o virtual em função da sua distância do presencial, pois assim podemos estar evitando recursos pedagógicos extremamente poderosos.
Alguém perguntou quais seriam as tecnologias imprescindíveis para se utilizar em educação. A pergunta me parece que vai na mesma direção da idéia do minimalismo tecnológico, que tenho discutido bastante aqui neste blog, e que pretendo retomar com mais profundidade num próximo post. Imprescindível ou mínimo são palavras que não me parecem fazer sentido, na situação atual da tecnologia para a educação.
Lembrei também que Web 2.0 não é sinônimo de Second Life: para alguns autores, inclusive, os mundos virtuais deveriam ser classificados como Web 3.0.
Questionei também se os ambientes de aprendizagem tradicionais não estariam condenados, e a Andrea respondeu que sim, que eles precisam se tornar mais flexíveis. Mas insistiu também que as experiências com a Web 2.0 estariam restritas, em educação, a alguns lone rangers – o que não pareceu verdade para quem assistiu ao resto do evento, em que foram mencionados muitos usos da web 2.0. Ela lembrou também que há problemas institucionais no uso dessas novas ferramentas – sem dúvida há problemas, mas muito maiores para as instituições que estão mais preocupadas em controlar do que promover o aprendizado.

16:30-18:30 – Diversas opções, e escolhi:
Painel Temático: Financiamento da EAD

Carlos Bielschowski – SEED/MEC, lembrou os primeiros financiamentos do governo federal para a EaD. Afirmou também que o financiamento da tutoria presencial na UAB, que inicialmente deveria ser responsabilidade dos municípios, acabou sendo assumido pelo governo federal, sendo devida uma pequena contrapartida dos municípios, por exemplo com os gastos com luz. Ele afirmou que estão sendo avaliadas e corrigidas fragilidades no sistema. Lembrou também das vagas aprovadas para docentes em institutos de universidades públicas que oferecem cursos de EaD.

Selma Leite – UFPA/Unirede discutiu alguns problemas. As bolsas para alunos continua, no caso dos novos alunos? Novos computadores serão adquiridos, para os pólos do novo edital?

De noite teve festa no Bill Bar, mas eu fui dormir!

QUINTA – 24/4
9:00-10:30 – Painel: Tecnologias de Interação Inovadoras, um painel bastante interessante.

Daniel Pataca – Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações, falou sobre TV ditital, completando muito bem a mesa-redonda do dia anterior (por que ele não estava lá?). Afirmou que se trata de um novo meio, que tornará cada vez mais barata a produção de conteúdo, fragmentará o conteúdo e o público, e exigirá novos modelos de publicidade. A TV se tornará móvel e personalizada, e o usuário poderá montar sua grade de programação e inclusive interagir a ponto de alterar o conteúdo. Hoje, as TVs detêm uma cadeia de valor verticalizada (produzem, distribuem etc.), o que deve mudar com a tv digital. Lembrou também que é muito difícil entrar texto na TV, e portanto não será possível transferir o que conhecemos da Web para a TV digital. Ressaltou ainda a vantagem de que a TV digital cobrirá o território nacional todo, mas também o problema de que os locais de retorno não estão igualmente distribuídos por todo o país.

Marcelo Zuffo, que coordena na USP a cadeira de interação eletrônica (que inclui TV digital, comunicação por dispositivos móveis, realidade virtual etc.), deu uma palestra bem interessante. Lembrou que a Realidade Virtual envolve imersão, realismo e interatividade. Contou uma interessante história da imersão, desde os homens da caverna que utilizavam tochas, passando pelas catedrais góticas na Idade Média. Falou dos sistemas visuais, táteis e interativos. Na década de 60, no MIT, surgiram os primeiros sistemas interativos. Mencionou os CAVEs – Cave Automatic Virtual Environment, baseados no Mito da Caverna do Platão (e da Caverna Digital desenvolvida na USP) e os Head Mounted Displays (capacetes), e apresentou dispositivos de interação para além do mouse. Apontou também para a convergência entre a Realidade Virtual e a TV ditial – 3DTV. Por fim, ele questionou se o progresso da tecnologia tem levado a um progresso da educação no país. Para ele, há um descompasso entre a tecnologia e a linguagem – seria necessário o resgate de um novo humanismo, com base na tecnologia, para usá-la para o bem do ser humano.

Jari Multisita – Universidade da Finlândia deu também uma excelente palestra. Precisamos acompanhar mais o seu trabalho por aqui. Falou dos sensores motores sendo utilizados em dispositivos móveis e lembrou do Nintendo Wii. Apresentou touch sensitive devices, como iPods, iPhones etc., em que você toca a imagem nos botões – teríamos assim uma nova maneira para controlar os dispositivos computacionais. Lembrou das mídias sociais e da idéia da remixagem de conteúdos: criar conteúdos também significa aprender. Falou ainda de dispositivos móveis, que envolvem as noções de localização e conteúdo, e lembrou do uso do Google Earth em celulares. Demonstrou agendas através das quais os amigos podem conferir onde seus colegas estão, visualizando automaticamente fotos postadas no Flickr. Falou da necessária adaptação de conteúdo para as Adaptative User Interfaces. Apresentou também o conceito de Adaptative Learning (aprendizado adaptativo), em que os ambientes virtuais de aprendizagem se adaptam às habilidades, aos hábitos e às preferências dos usuários. Mencionou também um software Navigator, comercializado por uma editora na Finlândia.

11:00-12:30 – Mesa Redonda: Necessidades e Conveniências de Parcerias na EAD
Patrícia Lupion Torres – Ricesu – PR, falou sobre a ilha da RICESU no Second Life e mencionou a Revista Colabor@.

Masako Massuda – Fundação Cecierj/Consórcio Cederj – RJ e Celso José Costa – Universidade Aberta do Brasil UAB – DF continuaram o debate, muito bem mediados por João Vianney – Unisul – SC.

14:00-16:00 – Diversas opções, mas era a hora da minha apresentação.
Mesa Redonda: Criação de Identidades Visuais – Usos de Personagens em Cursos em EaD OnLine, com a moderação de Melita Hickel – IEPG/EST.

Mauricio Rosa – ULBRA e UNESP/Rio Claro apresentou um trabalho muito interessante, de ensino de matemática utilizando RPG. Em uma fazenda, os alunos acabavam construindo o conceito de integral definida, para resolver os problemas propostos, no cultivo de soja. Para saber quanto comprar, era necessário calcular a área, e então surge o conceito, na hora de calcular a área de uma superfície cuja parte superior é uma curva. Ele utilizou referências muito ricas em seu trabalho. Usou os conceitos de ser com/ pensar com / saber fazer com.

Paula Carolei – SENAC-SP/Uni Sumaré apresentou suas experiências com RPG. Mencionou o uso de um fórum não verbal – com imagens, sons e vídeos. Lembrou a dialética imersão (movimentos simbólicos/autoria) e emersão, e a importância de vivenciar o ambiente.

Eliane Schelermm – UNISINOS fez uma demonstração no Second Life. Lembrou de outros ambientes, como o 2D The Palace e Club Penguin (2D para crianças). Falou do SLID card – que dá identidade ao avatar no Second Life. E da conversão de tecnologias – p.ex. com o acesso ao Second Life em celulares. Somos telenômades.

Eu encerrei, apresentando a atividade de criação de um avatar alternativo proposta por Gabrielli Rossini, que já comentei neste blog.

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Na discussão, a certeza de que é preciso treinar os usuários no básico do Second Life – por isso tenho desenvolvido os microtutoriais em português neste blog. O iniciante precisa de um guia – não adianta largá-lo para aprender sozinho. E o Second Life não é uma ferramenta de educação de massa – mas alguém precisa habitar as tecnologias do futuro, para avaliá-las e praticar seus usos pedagógicos.

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16:30-18:30 – Diversas opções, e escolhi:
Mesa Redonda: Gestão Estratégica de Programas de EaD

Rita de Cássia Borges de Magalhães Amaral – FEFIS falou sobre planejamento em EaD.

Alessandro Rossini – Uninter ressaltou a complexidade de um sistema de EaD.

Janae Gonçalves Martins – IST/SOCIESC encerrou a mesa.

A discussão foi muito interessante, exemplarmente moderada por Susane Martinos Lopes Garrido – UNISINOS. Uma boa gestão não é sinônimo de uma gestão inovadora. Tem ocorrido muita confusão por causa dos pólos obrigatórios – por que não utilizar o recurso das bibliotecas virtuais? Foi mencionado o Decreto 6303, que libera cursos de especialização mas mantém a exigência de avaliações presenciais. Em EaD, há necessidade de diferentes instrumentos de avaliação: para o curso, o aluno, o processo etc.
Foi também intensamente discutida a função e a remuneração do tutor, e a quantidade de alunos e de disciplinas sob sua responsabilidade. É preciso fazer filosofia da linguagem com a palavra tutor, pois cada um a utiliza de uma maneira diferente, hoje. Na PUC-RS, o tutor recebe como um professor. Susane ficou de levar essa discussão para um painel do qual ela participaria, no dia seguinte.

De noite, um jantar de confraternização, mas eu fui tomar cerveja com meu amigo de Goiânia.

SEXTA – 25/4
9:00-10:30 – Painel: Concepções Pedagógicas em EAD

Vani Kenski – Universidade de São Paulo, afirmou que o avanço tecnológico é acompanhado de um retrocesso pedagógico. Apresentou várias concepções pedagógicas, desde John Dewey.

Lea Fagundes – UFRGS continuou e Cristina Pfeifer- CEDERJ encerrou. No Cederj, os produtores de material didático não têm contato com os alunos – ou seja, modelo do impostutor, e não do aututor – e este é o modelo da UAB.

11:00-12:30 – Painel: O futuro da EAD no Brasil

Celso Costa – Uiversidade Aberta do Brasil – UAB, representando o governo, afirmou que participamos com 1,8% da pesquisa no mundo, e estamos em 13 lugar, mas em educação estamos em uma situação muito ruim. Estamos também mal na formação de engenheiros, por exemplo – o déficit é imenso. A prioridade da UAB é a formação de professores. Para ele, o futuro da EaD está em: (a) consolidação do processo regulatório; (b) aprofundamento do processo de avaliação; (c) consolidação da EaD como um programa de Estado; e (d) consolidação da rede de cooperação para atendimento ao território nacional; (e) estabelecimento e reconhecimento da cultura da EaD nas IES; (f) convergência entre EaD e educação presencial – uma educação flexível; (g) grande desafio: inovação tecnológica e inovação pedagógica; (h) estabilização do programa da UAB com qualidade social.
A CAPES teria sido importante na EMBRAPA, EMBRAER etc., por isso se justifica a UAB na CAPES – a UAB estaria sendo encubada na SEED, para em seguida ser transferida à CAPES. Teremos 850 pólos até o final do ano, 100.000 alunos, 850 prefeituras, 70 instituições públicas, participação de Governos do Estado e prefeituras etc.
Ele avaliou os dados recentes de que alunos de EaD foram melhores que presenciais – seria necessário analisar com cuidado como foram colhidos esses dados.
Na seqüência, ele afirmou: a questão do tutor é um problema menor, como se a expressão “educação a distância” deve ser craseada ou não. Essas discussões metafísicas seriam menos importantes que outras, colocadas anteriormente. Volto ao tema na discussão do painel.

Roberto de Fino Bentes – FIEPR, representando a iniciativa privada, a indústria do Paraná. A EaD é uma das ações do SENAI, para oferecer educação básica e profissional a 16.200.000 brasileiros. A necessidade de treinamento dos recursos humanos da indústria não pode ser atendida sem a EaD.

Susane Garrido – Unisinos, representando as universidades privadas, mencionou diversos Decretos e Portarias, voltou à questão do tutor (continuando a discussão da mesa que ela mediou no dia anterior), chamando a atenção para a sua importância, e encerrou fazendo uma leitura astrológica do futuro da EaD no Brasil.

A questão do tutor, se o tutor é professor ou não, é uma questão menor, como se a expressão “educação a distância” tem crase ou não? Todos nós sabemos que não. A crase tanto faz na expressão, pode ser usada ou não, ambas as formas estão corretas gramaticalmente. A questão do tutor não é a mesma coisa! O tutor é um elemento pedagógico chave na complexidade do sistema (dependendo do modelo, dependendo do modelo…). A questão do tutor é também social, pois envolve uma classe profissional no nosso país, e trabalhista, pois envolve diretamente a remuneração dessa classe profissional. Quando visitamos o CHSS – College of Humanities and Social Sciences da Montclair State University, no ano passado no Second Life, durante o curso ABC da EaD no SL, ficamos muito surpresos quando seu coordenador nos disse que a instituição (pioneira no Second Life) não fazia EaD, porque não houve acordo com o sindicato em relação à remuneração dos professores (os tutores). E isso, segundo ele, ocorria em várias instituições norte-americanas. Nos Estados Unidos, o rei do capitalismo. Como aqui essa questão pode ser uma questão menor, na visão do governo? Um tutor que ganha menos, muito menos que um professor, é uma questão de crase optativa?
Eu fiz então as duas primeiras perguntas:
1. Um modelo nacional, baseado na idéia do impostutor (material didático e atividades prontas) indecentemente remunerado, não é um modelo fadado ao fracasso? Isso é uma fragilidade identificada no sistema, ou não?
2. Já não passou da hora de a ABED se posicionar, politicamente, em relação à remuneração do tutor (sensivelmente diferente da remuneração do professor, o que tem criado uma nova categoria salarial, indecente), do número de disciplinas e alunos pelos quais ele tem sido responsabilizado no país, inclusive na iniciativa privada?
As perguntas foram completadas por outros membros da platéia: tudo tem sido impostos aos tutores, muitas instituições não têm coragem de contratar tutores com medo de processos trabalhistas etc.
Celso então afirmou que a questão do tutor faz parte de um processo novo, ainda em formação. Segundo Celso, as coisas não estão sendo impostas ao tutor pela UAB – têm sido negociadas com os coordenadores, com o Congresso Nacional etc. A questão é saber de que imposições estamos falando: salários, material pedagógico, atividades etc.
Segundo Celso, o salário do professor brasileiro é melhor do que no restante da América Latina – no Peru, segundo ele, um professor não consegue nem comprar um carro usado. Dependendo do lugar em que o tutor mora, no nosso país, ele ganha bem – ora, mas isso teria sentido num sistema de remuneração diferenciada em função da região, o que não temos no nosso país.
Os outros participantes completaram com visões muito diferentes. No SENAI, os professores tutores recebem a mesma coisa que professores em sala de aula. Na Unisinos, o tutor é contratado como professor. Enfim, uma discussão que merece um post separado.

14:00-15:00 – Palestra: Recursos Educaionais para Dispositivos Móveis

Jari Multisita – Universidade da Finlândia encerrou com brilhantismo o evento, falando de m-learning. Ele passou alguns vídeos em que seus alunos realizavam atividades em uma floresta, entrando informações pelos dispositivos móveis num banco de dados.
Ele usou as palavras wikiuniversity e wikigogy, a construção do conhecimento por wikis ou blogs.
Falou também de e-learning 1.0, 2.0 3.0: dos LMSs para as ferramentas de autoria, rapid e-learning, wikis, blogs, social bookmars, mashups etc., em que a propriedade do conteúdo muda de de cima para baixo para de baixo para cima.
Lembrou de novo do Jaiku, uma ferramenta que permite que seus colegas e alunos saibam onde ele está, sem que ele precise entrar a informação.
Falou da iTunes University e mostrou um vídeo de Stanford.
Por fim, lembrou ainda das telas pequenas dos dispositivos móveis, que podem ser problemas em alguns casos, mas não em outros. Ainda é uma dificuldade para o aututor desenvolver material para m-learning, mas isso tende a mudar

15:00 – Encerramento

Um CD foi entregue a cada participante do Congresso, com os trabalhos (não os painéis, nem as mesas e palestras). Li, dentre outros, o trabalho do Ecivaldo Matos – LEAH (Laboratório de Estudos da Aprendizagem Humana) da UERJ: “A Virtualidade Real: Possibilidades de Aplicação de Realidade Virtual na Educação Mediada por Computador”, que fala de Realidade Virtual e Aumentada, da Gruta Digital da USP, da VirtWall da Universidade Federal da Paraíba, e do Second Life, citando o meu Second Life e Web 2.0 na Educação.

Conheci no evento o Ricardo Holz, presidente da ABE-EAD – Associação Brasileira de Estudantes de Educação a Distância. Quem não conhecia, precisa conhecer. Existe também a ANIPEAD – Associação Nacional de Instituições Privadas de Educação a Distância. Por que não uma de professores, para representar os tutores?

Meu amigo de Goiânia achou o evento muito voltado à educação superior, e pouco às empresas, que era o seu interesse.

Agora, rumo ao 14 CIAED.

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4 respostas a V ESUD & 6 SENAED

  1. Eri disse:

    mattar, tem muita opinião polêmica, como não poderia deixar de ser. coisas que concordo e outras que discordo frontalmente. vou colocar minhas coisas em dia e volto durante a semana para fazer minhas observações.

  2. Moran disse:

    Caro João: Obrigado pela síntese do V Esud, muito importante para acompanhar as questões mais importantes por aqueles que, como eu, não pudemos estar em Gramado. Fica evidente o avanço que há nas instituições públicas e privadas; e a rapidez com que novas experiências e soluções surgem. Estou terminando uns dias de descanso em Maceió. Vamos retomar nosso contato, iniciado em Porto Alegre, na volta do Endipe.
    Grande abraço
    Moran

  3. João Mattar disse:

    Oi, Moran. Nos próximos dias vou fazer em outra página um resumo do que assisti no ENDIPE e vou também refletir sobre aquela nossa conversa no aeroporto, sobre o Second Life. Bom descanso por aí – o meu será em Julho!

  4. Breno disse:

    Ola Mattar,
    Uffaaa!!!! Estou conseguindo, depois de algum tempo afastado do real/virtual/digital, me atualizar com aquilo que esta sendo top na área de EaD. Obrigado.

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