XIV ENDIPE

O XIV ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino ocorreu na PUC-RS, de 27 a 30 de abril de 2008, com a temática geral: Trajetórias e Processos de Ensinar e Aprender: lugares, memórias e culturas.

O evento incluiu simpósios, painéis, salas de conversa e pôsteres.

Segue um resuminho do que eu assisti e/ou li nos 2 CDs. Há ainda algumas coisas que pretendo ler no CD e vou atualizando os comentários por aqui.

27 de abril de 2008 – Domingo
Credenciamento, abertura e conferência com Mario Sérgio Cortella sobre Paulo Freire, que eu não assisti.

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28 de abril de 2008 – Segunda-feira

8h30min – 11h30min Simpósios
Escolhi: Espaços virtuais e aprendizagem: desafios para o campo da didática e da formação de professores.

Marilda Aparecida Behrens (PUC-PR) falou sobre “Ambientes virtuais na formação pedagógica on-line dos professores universitários”, lembrando da complexidade do desafio. Ela contou a experiência de treinamento de tutores na PUC-PR, que utiliza o AVA Eureka.

Fernando Moraes Fonseca Jr., da PUC-SP, falou sobre “Espaços virtuais e aprendizagem: desafios para o campo da didática e da formação de professores”. Lembrou, por exemplo, como a proibição do uso de celulares em sala de aula vai contra uma tendência de comportamento e comunicação entre os jovens.

Rosália Duarte, da PUC-RJ, deu uma palestra bem interessante e fundamentada sobre o uso da tecnologia em educação. Lembrou, por exemplo, que não sabemos como os nativos digitais aprendem, pois não houve tempo de fazer pesquisas – a teoria do conhecimento e a psicologia não tiveram ainda tempo de estudar esse fenômeno. Trabalhamos, portanto, ainda com teorias de aprendizagem do século passado, mas sabemos, por exemplo, que a comunicação entre os jovens é caracterizada pela bidirecionalidade – emissão e recepção ocorrem simultaneamente. Ela mencionou a noção de experiência compartilhadas de Dewey, a chamada da SEED para a produção de roteiros para a tv digital e teachers.tv. Citou um dossiê de 1998 do European Journal of Communication, que abordava as características das novas gerações de estudantes. Precisamos estar atentos às necessidades, preferências, atitudes e hábitos dos usuários de tecnologia móvel e jogos eletrônicos. Ela mencionou também o interessante trabalho de Desmond Keegan: The future of learning: from eLearning to mLearning e pesquisas recentes do Instituto Gartner sobre o comportamento dos estudantes do ensino médio. Esses alunos esperam receber ensino de qualidade com atendimento personalizado, com uma rede sem fio gratuita que os mantenha conectados o tempo todo, em todo lugar, e permita acesso simultâneo a uma grande variedade de conteúdos. Além disso, eles são capazes de estudar e aprender por fragmentos. Citou ainda o interessante Literature Review in Mobile Technologies and Learning, de Laura Naismith, Peter Lonsdale, Giasemi Vavoula e Mike Sharples, e uma série da BBC, sobre celulares e SMS. Apontou a eficácia pedagógica de pequenos lembretes, curtos, vídeos curtos etc. Falou também do portal de tv digital da PUC-RJ, e fez uma observação muito interessante: os filmes de ficção científica não têm escolas.

Encerrando o Simpósio, Rosane Aragón de Nevado (UFRGS) deu a palestra “Espaços virtuais de docência: metamorfoses no currículo e na prática pedagógica”, demonstrando uma sintonia muito forte com as idéias que venho defendendo sobre a EaD. O estudo de caso foi a interessante experiência de formação de professores da Faculdade de Educação/UFRGS, com o curso de graduação em Pedagogia-Licenciatura a distância, oferecido a 400 professores (média de 36 anos) em cinco pólos no Rio Grande do Sul. Mas as reflexões sobre a EaD foram tão ou mais interessantes. Ela falou do preconceito em relação à EaD, que adviria de modelos inadequados. Cursos sem professores, em que ocorre um acompanhamento burocrático; ambientes pobres em interação. A EaD não veio para baratear a educação, pode até ser mais cara, veio para dar acesso à educação a pessoas que não poderiam estudar presencialmente. São necessários currículos flexíveis, arquiteturas pedagógicas abertas. Ela mencionou o uso de currículo por eixo, com um eixo articulador interdisciplinar, e seminários integradores. Na experiência da UFRGS, os professores dos primeiros módulos são mantidos durante todo o curso, pois acompanham os alunos e os outros professores, ajudando-os na travessia. É utilizado um sistema de autoria coletiva, bibliotecas multimidiáticas, simulações e jogos interativos. Ela lembrou dos modelos que se propõem a produzir material para 5 anos de uso, mas logo percebem que em 2 anos o material não serve mais. No curso da UFRGS, o material pode ser modificado antes e durante o semestre. Ocorre, portanto, a criação de espaços de autoria, com flexibilidade nos papéis. São também utilizados wikis e blogs, já que os ambientes de aprendizagem tradicionais não têm a flexibilidade que eles gostariam e geram uma sensação de isolamento. O curso acaba funcionando portanto, também, como inclusão digital para os alunos. Diferenciou a avaliação de retenção de conteúdo da avaliação de aprendizagem. Os alunos precisam defender seu portfolio perante uma banca de três professores. Resultados? Segundo os alunos: mudanças na vida profissional, recuperação do lúdico e do prazer no trabalho, aulas mais criativas/dinâmicas/flexíveis, maior compreensão e compreensão dos erros (próprios e dos outros), maior autonomia e segurança nas opiniões, vontade de conhecer/ler/buscar atualização. Para terminar, uma crítica aos modelos de EaD de repassadores de material e tutores – não funcionam!

11h30min – 12h30min Sessão de Pôsteres
Eu selecionei alguns e tentei, mas estava meio confuso: os números do programa não apareciam, então era preciso percorrer todos os pôsteres – mas o espaço era muito apertado, praticamente impossível de apreciar os trabalhos. Fui então checar no CD os pôsteres que perdi.

A Formação de Professores e a Linguagem Interativa da Lousa Digital – Sergio Ferreira do Amaral, Ilda Basso e Rosária Helena Ruiz Nakashima – Unicamp.

Objetos Virtuais de Aprendizagem na Docência Semi-presencial e Online na Formação de Professores de Ciências da Natureza – Ivanderson Pereira da Silva, Luís Paulo Leopoldo Mercado e Martha Paulino de Barros.

Professor e Computador: afinal, como é essa relação? Letícia Bechara Zukovski Franco – UMES-SP.

12h – 13h Salas de Conversa
Um formato muito interessante: poucos interessados se reúnem para discutir um tema. Escolhi:
Conversações acerca da prática de aprender/ensinar filosofia, proposta por Elisete Medianeira Tomazetti – UFSM e líder do Grupo de Pesquisa/CNPQ – Filosofia, Cultura e Ensino Médio. Discutimos o currículo para formar professores de filosofia e para ensinar filosofia em escolas, e a falta de formação pedagógica para quem dá aulas de filosofia (assim como a falta de formação filosófica para quem dá aula de metodologia do ensino). Na Universidade Estadual do Maranhão, há questões de filosofia no vestibular, baseadas em um clássico que muda a cada ano – quase 50% dos alunos já chegaram a zerar na prova!

Na parte da tarde houve mais 2 painéis, dos quais não participei porque fui conhecer o Grupo de Pesquisas em Educação Digital da Unisinos, coordenado pela Dra. Eliane Schlemmer.

[photopress:Grupo_Unisinos_DSC02804.JPG,full,vazio]

Tivemos uma agradável tarde de discussões sobre EaD, mundos virtuais e Second Life. Este é provavelmente o grupo nacional mais avançado na utilização de mundos virtuais 3D, incluindo o Second Life, em educação, responsável inclusive pelo desenvolvimento da ilha RICESU no SL, então me senti muito honrado de poder ter interagido com eles. Eles colocaram um post sobre a minha visita no blog deles.

14h – 16h Painéis Grupo A
Pretendo conferir os vários painéis sobre EaD no CD, e atualizo depois por aqui.

16h15min – 18h30min Painéis Grupo B
Houve também vários painéis sobre EaD neste horário, que confiro depois no CD e comento por aqui.

Decidi de qualquer maneira conferir o painel: “Metodologias Interativas em Educação Online”.

Um dos trabalho apresentados foi: “Ensino Online e Jogos Eletrônicos: novas narrativas para mediar a aprendizagem.”, por Lynn Alves - UNEB. O artigo menciona a Rede Brasileira de Jogos e Educação e editais criados pelo Ministério da Cultura e o FINEP em parceria com o Ministério de Educação e Ministério de Ciência e Tecnologia. Além de uma discussão teória, são mencionadas experiências brasileiras, como: professor Jacques Duílio Brancher, da URI – Campus de Erechim, para o ensino da matemática de 5a a 8a séries: COSAEMAF, PJE, RPGEDU, e um ambiente web; The Mansion (Relações Públicas); Telemig Celular (treinamento); Desafio Sebrae (administração); e o Tríade da UNEB (História).

18h45min – 20h Conferência Dr. Maurice Tardif.

20h30min Lançamento de livros, numa incrível feira, com dezenas de stands.

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29 de abril de 2008 – Terça-feira

8h30min – 11h30min Simpósios
Escolhi: Educação e tecnologias: memória e lugares da formação

Vani Kenski (USP e Site Educacional) iniciou com “Memória, vivências e tecnologias: novos lugares de formação”. Ela distinguiu a memória social da artificial, e traçou um histórico das mnemotecnias, passando pelos oradores, teatro, Dante, Shakespeare etc. Analisou também a dialética oral/escrita passando por Sócrates e Platão. Para Kenski, ao avanço tecnológico de hoje está associado um retrocesso pedagógico, em função da passividade do aluno, do predomínio da ação do docente, da ênfase nos conteúdos e tecnologias, na reprodução das aulas presenciais, e da educação massiva e indiferenciada. Ela usou o termo multiálogos. As tecnologias a serem utilizadas devem ser escolhidas em função dos objetivos de aprendizagem.

Uma forma interessante de registrar as palestras é tirar fotos dos slides – o que algumas pessoas fizeram durante a palestra de Kenski.

Rosa Maria Bueno Fischer (UFRGS) continuou, com “Notas sobre memória, cinema e alteridade”, as tecnologias audiovisuais e a educação do olhar no cinema. Lembrou da associação comum entre tecnologia e progresso. Um dos livros mencionados foi: ALMEIDA, Milton José de. Cinema. Arte da memória. São Paulo: Autores Associados, 1999. Um dos conceitos trabalhados foi o da “espacialidade da diferença”.

O animado Nelson De Lucca Pretto (UFBA e GEC – Grupo de Pesquisa: Comunicação, Educação e Tecnologias) encerrou com “Educar na era digital: construindo redes colaborativas”. Ele lembrou que vemos hoje nascer e morrer uma tecnologia em uma mesma geração. Mencionou o Ginga, software livre para tv digital, e defendeu que tv digital é uma questão para educadores, não para tecnólogos ou marketeiros, já que pode facilitar o acesso à educação a boa parte da população. Lembrou do programa do governo Banda Larga nas Escolas. Há um movimento de protagonismo juvenil, em que os jovens estão se apropriando de tecnologias, mas os professores não estão acompanhando essa apropriação. Pensando em memória, ele lembrou da importância da troca de cartas entre cientistas, que teriam praticamente terminado com o telefone, e perguntou se estaríamos hoje armazenando adequadamente com a memória digital. Falou bastante sobre a luta em favor do software livre como uma luta política, e da importância do acesso gratuito a revistas acadêmicas. E fez um raciocínio interessante em relação à diferença – o diferente entra, mas se o processo for eficiente, vai transformando o outro em eu, acabando assim com as diferenças.

11h30min – 12h30min Sessão de Pôsteres
Alguns que me interessaram:

Desafios para a Prática Docente em Filosofia – José Leonardo Annunziato Ruivo/UFRGS

Modelagem Pedagógica em Sala de Aula envolvendo Jogos: uma primeira experiência didática de acadêmicos em matemática 2006/1 – Leonel G. Delatorre, Alexandre X. dos Santos, Thanise Azzolin, Marline I. da Silva, Katiéle Carvalho, Alice Kozakevicius, Regina E. Bathelt

A Mesmice da Filosofia no Ensino Médio: considerações sobre as práticas pedagógicas – Sonia Maria Ribeiro de Souza

12h – 13h Salas de Conversa
As que me interessaram:

Ensinar e aprender com a mídia: uma proposta didática para o ensino na área da Engenharia – Helena Sporleder Côrtes – FACED/PUCRS, Claudio L. C. Frankenberg – FENG/PUCRS e Liane Ludwig Loder – FENG/UFRGS

Aprender e ensinar música no cotidiano – Grupo de Pesquisa Educação Musical e Cotidiano – UFRGS, Jusamara Souza

14h – 16h Painéis Grupo C

16h15min -18h30min Painéis Grupo D

18h45min – 20h Conferência: Dr. Kenneth Zeichner

21h Jantar de confraternização

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30 de abril de 2008 – Quarta-feira

8h30min – 11h30min Simpósios
Dentre os quais: “Interdisciplinaridade-transdisciplinaridade: visões culturais e epistemológicas e as condições de produção”.

11h30min – 12h30min Sessão de Pôsteres

Professor: onde está a sua corporeidade? – Siomara Priscilla A. D. Barbosa (Unidade Educacional Infantil/UEI/UFRN)

A Web 2.0, a Educação e as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação: novas possibilidades de aprendizagem na pós-modernidade – Alex Sandro C. Sant’ana – Universidade Federal do Espírito Santo (PPGE-UFES)

O Jovem e os Videogames: consumo cultural, produção de sentidos e educação – Dilton Ribeiro Do Couto Junior – UERJ

Juventude e a História nos Games: novos constituintes de aprendizagens e saberes em história? – Eucidio Pimenta Arruda – PROPIC/FUMEC/FUNADESP; FaE-UFMG

“Oh Não!! Amanhã Tem Aula!!!!”: Articulações Entre Orkut/Professor/Ensino – Leila Mury Bergmann (Ufrgs/Cnpq)

Influência do Orkut na Formação de Valores e Crenças dos Jovens nos Dias Atuais – Ligia Maria Sayão Lobato De Coppetti – UFRGS

Second Life: uma a proposta de utilização pedagógica – Luciano Kercher Greis e Elaine Turk Faria (PUCRS), que fala principalmente do espaço da PUC-RS na ilha Vestibular Brasil.

Perspectivas e Possibilidades de Formação Docente utilizando M-Learning (aprendizagem com mobilidade) – Paulo Gaspar Graziola Junior e Eliane Schlemmer – Unisinos, em que é mencionado o Mobilab da Unisinos.

12h – 13h Salas de conversas

14h – 16h Painéis Grupo E

Interessou-me: Desenho Didático em Educação Online

O desenho didático: subsídios para uma pesquisa interinstitucional em ambiente online – Marco Silva (Estácio – RJ)

Desenhos didáticos de cursos online: um enfoque dialógico – Lucila Pesce – (PUC/SP-TIDD). Para Lucila, que baseia sua reflexão em 3 conceitos: agir comunicativo de Habermas, dialogia Bakhtin e interação dialógica de Paulo Freire, os desenhos didáticos dialógicos “resistem à implementação de princípios como eficiência, eficácia e produtividade, travestidos no desenvolvimento de competências e habilidades”, “dizem não ao atendimento massivo, que torna os cursos online economicamente viáveis”, superam o “conceito tecnicista de formação em cadeia, que cinde conceptores e tutores”, privilegiam “interações genuínas entre formando e formador, em recusa a interações artificiais, erguidas em meio a um script de autoria alheia” e utilizam uma “proporção adequada do número de formandos por formador, de modo a não comprometer a relação pedagógica inerente a esse processo.” Quem vem acompanhando este blog e as minhas reflexões/palestras/publicações percebe a sinergia entre as idéias de Pesce e as que tenho defendido.

Didática online: contribuições para o desenho didático em ambientes digitais de aprendizagem – Adriana Rocha Bruno – (PUC/SP-TMD)

16h15min Conferência de clausura Dra. Maria Christine Josso

18h Encerramento

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Aproveitei também para conhecer o Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS, que é absolutamente fantástico.

[photopress:MCT_PUCRS_1.jpg,full,vazio]

Educação Ambiental, Astronomia, Geografia e História, Biologia, Química, Física, Matemática, Tecnologia… tudo está organizado de maneira extremamente interativa. Um museu de nível internacional, 5 estrelas. Parar passar um dia com as crianças.

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7 respostas a XIV ENDIPE

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  3. opa! eae tchê, por acaso encontrei meu nome no teu blog… se, de fato, se interessou pelo trabalho, podemos trocar uma idéia.

    um abraço,
    leonardo.

  4. João Mattar disse:

    Leonardo, eu sou formado em Filosofia, dou aula de Filosofia faz tempo no ensino superior e sou autor do livro “Filosofia e Ética na Administração”, que funciona como um livro-texto para a disciplina, principalmente em cursos relacionados à Administração. Então, é claro, me interesso pelo tema. Você poderia fazer um resuminho do seu trabalho por aqui, assim todos podem acompanhar, e continuamos mantendo contato sim. Valeu!

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