XVIII AILC

O XVIII Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ICLA) ocorrerá de 29/07 a 04/08/2007, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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O tema do Congresso é:

“Para além dos binarismos: descontinuidade e deslocamentos em Literatura Comparada.”

O programa é incrível, tem quase 100 páginas!

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A AILC foi fundada em 1954, na Universidade de Oxford, e dentre seus fundadores estava T. S. Eliot. Desde então, tem realizado congressos trienais em diferentes países. O Congresso do Rio de Janeiro será o primeiro na América Latina.

O objetivo da AILC é promover o estudo da literatura através da cooperação internacional. Hoje, ela conta com mais de 6.000 sócios.

A Associação publica regularmente os Anais dos Congressos, um Boletim e o Literary Research/Recherche Littéraire, dentre outras publicações.

Vou “transmitir” o Congresso por aqui, ou seja, vou comentar o que estiver acontecendo no Congresso, as palestras que eu assistir etc. Ou seja, esta página será atualizada constantemente durante o evento.

No caso de comentários mais longos sobre alguma apresentação, abrirei um tópico especial no blog, assim vocês podem também participar da discussão. Abri então uma categoria especial para isso: XVIII AILC. Nessa categoria estarão reunidos todos os comentários específicos sobre palestras postados no blog. Portanto, cada vez que você clicar nela, poderá haver mais posts. Você pode acompanhar os posts também pela página principal do blog.

Até domingo, quando começa a festa!!

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30/07/2007

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Ontem, domingo, o Congresso começou para as inscrições, houve um concerto de música brasileira e um coquetel.

Hoje, segunda-feira, pela manhã, houve a abertura oficial, com uma sessão em homenagem à professora Tânia Franco Carvalhal (da UFRGS), uma palestra do prof. Roberto Fernandés Retamar e uma assembléia geral, e então começaram as sessões temáticas. Elas estão organizadas em 7 Seções, além de workshops e simpósios.

Eu assisti às apresentações da Seção 2, sobre o Discurso Crítico e o Papel do Intelectual (Critical Discourses and the Role of the Intellectual).

Primeiro falou o professor Luiz Costa Lima, da PUC-RJ e UERJ. Ele usou como referência os filósofos alemães Jürgen Habermas e Hannah Arendt, defendendo a cultura da contradição e da confrontação, o compromisso político e dialógico, fundados pelo discurso crítico, contra o efeito da mídia, que transformaria o intelectual em um performer. Para Costa Lima, a mídia neutraliza as possibilidades da linguagem e permanece apenas no nível da comunicação, por isso seria essencial a resistência crítica do intelectual.

Massimo Verdicchio, da Universidade de Alberta, leu o trabalho ‘Literary Theory and the Role of the Intellectual from Kant to Croce’. Além dos dois, ele analisou também algumas idéias de Nietzsche.

Douwe Fokkema, da Universidade de Utrecht, em ‘The Location of Binarism’, diferenciou o trabalho do escritor, do crítico literário e do pesquisador, e defendeu que as obras literárias podem ter diferentes leituras, citando o exemplo de Grande Sertão: Veredas e A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, e da peça The Other Shore, do prêmio Nobel de literatura chinês Gao Xingjian.

É estranho que em um congresso os palestrantes simplesmente leiam sentados os seus trabalhos, sem utilizar recursos audiovisuais e sem estabelecer, durante a leitura, um efetivo diálogo com a platéia. É também muito chato que parte do público escolha uma palestra para assistir em uma sala, depois saia e vá para outra sala, criando certa baderna. E que pessoas consigam deixar o celular tocar mais de uma vez durante as palestras.

A dúvida que fica ao final desta sessão, não apenas em relação ao teórico da literatura, mas ao intelectual em geral, é que público ainda resta para este tipo de discurso. E, também, por que não é possível pensar a resistência crítica por dentro da mídia, ou seja, o intelectual se apoderando dos recursos midiáticos, ao invés de se auto-proclamar o único que se propõe a enfrentar os poderes demoníacos da mídia.

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31/07/2007

Hoje as sessões temáticas começaram efetivamente, desde a manhã, então tem muita novidade.

Na Seção 3, Crossings and Contaminations, das 11:00 às 12:30, estava programada uma mesa com 4 palestrantes. Sabem quantos apareceram? Só um! Dorothy Wong, da Lingnan University, apresentou então sozinha o trabalho ‘Mean(ing) Streets: (Post)-Colonial Hong-Kong in Literature and Film’, em que analisou a simbologia da cidade e das ruas de Hong-Kong em função da passagem de colônia inglesa para chinesa, tanto no cinema quanto na literatura. É interessante pensar que Hong-Kong não se tornou independente, apenas passou do poder de um país para outro, aliás de um país capitalista para um socialista; mas, no fundo, é ainda hoje um grande centro financeiro. Neste sentido, Wong analisou como o capitalismo procura criar o sentimento de uma identidade fixa, com a homogeneização da cultura, enquanto boa parte da paisagem de Hong-Kong preserva justamente a heterogeneidade. Portanto, no mesmo espaço é possível observar diferentes tipos de ruas.

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Após o almoço, assisti ao workshop ‘Comparative Literature in the Digital Age’ e fiquei muito feliz pela escolha. A AILC tem agora um comitê específico para o tema. Foram 5 palestras e tem muito site para a gente pesquisar.

Inicialmente, Alckmar Luiz dos Santos, do CCE e do NUPILL da UFSC, apresentou o trabalho ‘Texto digital e reconfiguração do leitor’. Ele destacou a teatralidade do mundo digital e
mencionou o gerador de textos SINTEXT, do professor Pedro Barbosa, e o software Palavrador.

Em seguida, Amelia Sanz Cabrerizo, professora da Universidad Complutense – Madrid (cuja biblioteca integra o projeto Google Books), coordenadora do LEETHI (que está organizando o I Premio Literaturas en Espanõl del Texto al Hipermedia), uma das editoras de Literatures in the Digital Era: Theory and Praxis e colaboradora da EOLSS – Encyclopedia of Social Sciences and Humanities da UNESCO, apresentou o trabalho ‘What Innovation Is/May Be in Literary Studies: Some Experiences with IT’. Ela discutiu como as inovações tecnológicas são consideradas por muitos ilegítimas, referiu-se aos standards da ACRL e também mencionou algumas bibliotecas virtuais, como: Biblioteca Numérica Gallica, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Corpus Histórico do Português Tycho Brahe, Bibliothèques Virtuelles Humanistes (BVH), Project Gutenberg e Athena. Assim que eu voltar de viagem, vou criar e organizar a categoria de bibliotecas virtuais (contribuições são muito bem-vindas!).

Depois, Dolores Romero López, a organizadora do workshop, também da Universidad Complutense – Madrid, apresentou o trabalho ‘Spanish Literature in the Digital Domain: Crossings and Contaminations’. Um dos slides que ela passou era muito interessante pois listava os distintos significados que podemos atribuir à expressão Literatura Digital, como hipertexto, trabalhos com flash, textos produzidos por computador, blogs, trabalhos colaborativos etc. Vou pedir para que ela disponibilize o slide para nós, pois gostaria de ampliar essa discussão. Ela também defendeu a importância de alguns autores para o entendimento da literatura digital, como Julia Kristeva, Roland Barthes, Mikhail Bakhtin, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Felix Guattari, Jacques Derrida, Wolfgang Iser e Stanley Fish – um time de peso! Referiu-se também ao professor José Luis Orihuela Colliva e ao grupo de pesquisa de Estudos Literários e Tecnologias Digitais Hermeneia, que tem inclusive como membro um colega nosso brasileiro, o professor Jorge Luiz Antonio, da FAP – Faculdade Paulista de Artes, e ao Open Directory Project. Segundo a professora Dolores, há ainda espaço para os pioneiros da literatura digital, pois o campo ainda está em sua infância.

A palestra seguinte foi a da professora Laura Borràs Castanyer da UOC – Universitat Oberta de Catalunya, Changing Modes of Reading: Comparativism praxis in the Digital Age, que preferi comentar como um post separado no blog.

A última palestra foi de María Goicoechea de Jorge, da Universidad Complutense – Madrid, denominada ‘The Mechanic Eye: North American Visual Poetry in the Digital Age’. Ela apresentou uma interessante história da poesia visual, dos Navajo Sandpaintings, passando pela Poesia Concreta até os jogos de computadores. Ela também nos brindou com vários sites interessantes para discutirmos: o Electronic Poetry Center, o Vispo, Robert Kendall, a revista Kaldron, Ubuweb e a Born Magazine.
Da mesma maneira que propus por aqui o conceito de aututor, podemos pensar no ‘escritista’, ou mesmo do poeta-designer. Portanto, acho que é a hora de fazermos por aqui uma revisão no movimento de Poesia Concreta brasileiro, para começarmos a utilizar algumas dessas idéias na produção de material para EaD.

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Por fim, assisti a uma mesa (17:30-19:00) da Seção 1, Comparativisms: Roots and Routes.

Didier Coste, da Université Michel de Montaigne, Bordeaux 3, apresentou o trabalho ‘Comparative Universalism’, defendendo o estudo comparativo dos universais nas diversas culturas e literaturas.

Ross Shideler, da UCLA, apresentou a palestra ‘An Overview on Current and Future Employment Issues for Comparative Literature and Humanities PhDs’, discutindo o mercado de trabalho para os doutores em literatura comparada. Na opinião dele, é importante que os alunos levem em consideração a possibilidade de trabalharem em universidades menores e Colleges, não apenas nas universidades de maior destaque. Durante a discussão, eu lembrei que estudantes de Filosofia e Literatura podem se tornar excelentes profissionais de Negócios e Administração, tema de um trabalho que apresentei anos atrás em um Congresso da MLA e que logo postarei por aqui. Ou seja, o horizonte pode ser ainda mais amplo para os alunos de humanas, que têm dentre outras habilidades a maestria da linguagem e a capacidade de simular e lidar com cenários conflitantes, mas é preciso que os departamentos mostrem essas direções alternativas para seus alunos e os preparem para esses desafios.

E por fim Reinaldo Marques, da Universidade Federal de Minas Gerais, leu em português o trabalho ‘Estudos comparados e arquivos literários.’ Ele já vem trabalhando há tempo com a pesquisa e compilação de arquivos de escritores e se interessa pelo deslocamento dos arquivos particulares para a esfera pública, quando eles passam pelo tratamento de vários profissionais (bibliotecários, arquivistas, museologistas etc.). Sua apresentação refletiu sobre o efeito que os arquivos de escritores podem ter sobre os estudos literários. Com os arquivos, como ficariam questões como a da intencionalidade da obra de arte? Se um escritor escreveu um romance histórico e descobríssemos em seus arquivos documentos históricos que se relacionam ao tema do romance, interpretação resolvida? Reinaldo Marques propõe o interessante conceito do arquivista anarquista, aquele que não se preocupa em organizar o material dos arquivos, mas no fundo desorganizá-los, possibilitando assim novos olhares para a obra de arte, e não o reforço da interpretação correta. O que coincide com a idéia que eu propus (sem pensar em arquivos) em meu Feliz Páscoa, Pierre Rivière: Os Múltiplos Selves dos Autores-Assassinos.

Assim terminou a terça-feira!

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02/08

Quarta foi dia de folga para passeios. Assim que eu voltar vou escrever um posto em homenagem ao Rio com fotos.

Das 09:00 às 10:30, assisti a apresentações da Seção Critical Discourses and the Role of the Intellectual.

A primeira palestra foi de F. Elizabeth Dahab, da California State University – Long Beach, ‘Worldy or Worldless? Reflections on Comparative Literature Today’, em que destacou que o campo de teoria literário se ampliou nos últimos anos, passando a incluir os campos da história e da sociologia, da cultura e da política.

A palestra seguinte foi de Marta Skwara, da Szczecin University, da Polônia, ‘The Reception of Literary Works in Literary Works’, em que lembrou que poetas e escritores também são intelectuais.

A seguinte a falar foi Suzanne Nalbantian, da Long Island University, com o trabalho ‘Discourses of Interdisciplinarity: The New Alliance of Literature and Neurosciense’. Ela destacou o avanço nos estudos sobre o cérebro e NCC (Neural Correlates of Consciousness), e a conseqüente necessidade de os estudos literários se abrirem para se tornarem mais interdisciplinares. A consciência hoje não é mais um tema exclusivo da filosofia, pois é também estudada pela ciência. Segundo Suzanne, as ciências humanas não teriam respondido à chamada dos cientistas para a interdisciplinaridade. Ela apontou então para várias linhas de pesquisa na intersecção entre estudos literários e neurociências: Proust, Faulkner, Virginia Woolf, James Joyce etc. A teoria literária poderia se aproveitar dessas pesquisas em ciências, e isso traria mais autenticidade para seus estudos.
Soou muito estranha para mim essa palavra ‘autenticidade’. Não teríamos então aqui, me parece, interdisciplinaridade, mas a teoria literária recorrendo à ciência verdadeira, que poderia referendar o seu discurso. Além disso, acho estranho se falar de interdisciplinaridade entre teoria literária e neurociências sem tocar no desafio principal: que novos métodos devem ser utilizados em teoria literária? Simplesmente aplicar as descobertas das ciências à análise literária? Isso nos traria mais compreensão sobre a obra de arte? Sobre as intenções dos autores (mas o assunto da intenção dos autores é longo…). Enfim, a proposta pode ser interessante, mas é necessária a construção de novos métodos de trabalho e os seus testes, para podermos efetivamente avaliar os ganhos (ou perdas!) para os estudos literários.

Por fim, falou Jola Skulj, da Slovenian Academy of Science and Arts, apresentando o trabalho ‘Reading Asymmetries. On the Incommensurables of the Singular’, refletindo sobre a noção de singular.

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Das 11:00 às 12:30 continuei na mesma seção.

Inicialmente falou o doutorando Florian Klinger, da Stanford University, com o trabalho ‘On Judgment: Criticism Taken by its Name’. No final fui falar com ele e descobri que ele é orientando do meu querido orientador de pós-doutorado, Hans Ulrich Gumbrecht. O trabalho de Klinger foi teórico, discutindo a crítica literária em função do conceito de julgamento. Para Klinger, o julgamento ocorre em situações críticas, em que procedimentos padrão não podem ser utilizados, e então ele precisa estabelecer seus próprios critérios. O julgamento seria o terreno para o estabelecimento de relações entre particulares e universais, ou seja, para o conhecimento. Apesar de denso e teórico, o trabalho gerou várias perguntas e uma interessante discussão.

O segundo e último palestrante da sessão foi Jeffrey R. Di Leo, da University of Houston, diretor da revista Simploke, com um perfil mais popular para a teoria crítica, e da American Book Review, que publica inovações em literatura. Ele apresentou o trabalho ‘Intellectuals in the Corporate University: Critical Discourse and the Marketplace for Idea’, praticamente oposto ao trabalho anterior, por ser bem menos denso e teórico. Jeffrey se interessa pelo mercado para as idéias. Como quase todos, ele reconheceu que está ocorrendo uma mudança dos estudos mais teóricos para os mais práticos, uma alteração no nível do discurso intelectual, e sugeriu a leitura de Public Intellectuals: a History of Decline, que assim que possível faremos por aqui. Pode-se observar uma migração dos intelectuais das universidades para a mídia de entretenimento, do espaço privado da academia para o espaço público e o mercado. Eles têm que se comportar mais como estrelas de cinema do que como acadêmicos. Stanley Fish seria para ele um exemplo. Explorou também a posição que o intelectual pode ocupar na universidade corporativa, e a compatibilidade entre os valores da academia e das empresas. Assim, os intelectuais teriam a responsabilidade de pensar no mercado para suas próprias idéias. Neste sentido, ele deu o exemplo da Simon & Schuster, que criou um mercado para propostas de publicação de livros, ou seja, autores ou seus agentes enviam para a editora livros para serem publicados, algumas páginas são disponibilizadas para os apostadores, e um livro pode eventualmente ser escolhido em função da probabilidade de sucesso que o mercado aponta para ele. Que louco!

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Após o almoço, passei para a Seção 4, Human, In-Human, Post-Human

Na sessão das 14 horas apareceram apenas 2 palestrantes.

Isabella Vieira de Bem, da Universidade Luterana do Brasil, apresentou o trabalho: “Genealogies of Post-Humanity in the Works of William Gibson and Douglas Coupland”, em que defendeu que os autores tratam diferentemente a pós-humanidade. Ela se centrou na trilogia de Coupland: Generation X, Microserfs e JPod. Nos três livros, segundo Isabella, Coupland faz uma genealogia dos personagens pós-humanos, discutindo como nos tornamos pós-humanos. Para a palestrante, Coupland proporia uma versão mais poderosa da pós-humanidade do que Gibson.

Em seguinda, Izabella M. Furtado Kestler, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentou em português o trabalho: ‘Paradigmas do humanismo e da Bildung no pensamento estético de Goethe e Schiller’, em que assinalou e delimitou as diferenças e convergências nas reflexões de ambos em torno desses paradigmas. No caso de Schiller, ela se centrou na obra A Educação Estética do Homem numa Série de Cartas, e no caso de Goethe, no romance Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister. Segundo Izabella, a educação estética proposta por Schiller seria um projeto político, o que contradiria os que acusam o autor de apolítico.

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A seguir, foi a vez da sessão em que apresentei o meu trabalho, ‘Zen Pinocchio: the Dialetics Human/ Inhuman through Movies’. O resumo do trabalho pode ser lido no post que criei sobre o Congresso.

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Em seguinda, Henriette Roos, da University of South Africa, apresentou o trabalho ‘“Not properly Human”: Literary and Cinematic Narratives about Human Harvesting’, em que analisou, dentre outras obras, o romance Never let me go, de Kazuo Ishiguro.

E por fim Maria do Rosário Lupi Bello, da Universidade Aberta de Lisboa, apresentou o trabalho: ‘Blade Runner: a Modern Poem About Mankind’, em que analisou o filme, já lançado em diversas versões.

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Na sexta-feira continuei na Seção 4, em uma sessão em que apareceu apenas um doutorando, Giuseppe Episcopo, da University of Naples Federico II, que apresentou o trabalho: ‘Bodies’ Degree Zero. The “Anti-Tradition” of Human or the Tradition of “Anti-Human” in the 20th Century‘.

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Após o almoço veio a compensação.

Das 14:00 às 15:30 escolhi a Seção 6: TRANSLATION, TRADITION, BETRAYAL? e assisti a uma sessão multilíngüe.

A primeira a falar foi Irene Hirsch, da Universidade Federal de Ouro Preto, com o interessante trabalho: ‘Missing Translations’, em que analisou como as traduções para o português disponíveis na época afetaram o movimento da Inconfiência Mineira. Ela listou as bibliotecas disponíveis no período colonial (a maior seria a de Luís Vieira da Silva, com 556 volumes de 241 títulos) e as traduções referentes às leis constitutivas dos Estados Unidos.

Em seguida, falou em português a bela e simpática Tatiana Fantinatti, da Universidade Federal do Rio de Janeiro/Universidade Federal Fluminense, com o trabalho: “Un sertão lu en italien”. Inicilamente, ela apresentou a teoria da tradução de Schleiermacher. Ela então analisou as opções do tradutor do romance para o italiano, Edoardo Bizzarri, com quem Guimarães Rosa estabeleceu uma rica correspondência. A tradução italiana, publicada em 1970, apresentou o sertão como se fosse um jardim italiano. Tatiana analisou, por exemplo, as soluções para os neologismos de Rosa, quase sempre traduzidos por palavras que já constavam da língua culta italiana, o que sem dúvida gerou perdas na leitura do romance em italiano. Mas no final, a tradução apresenta um glossário de palavras temáticas. Neste sentido, o trabalho também questionou: em que leitor Rosa pensou, quando escreveu Grande Sertão: Veredas? E para qual leitor o tradutor deveria traduzir o romance? Penso que um romance deste porte deveria exigir uma equipe de especialistas para sua tradução.

Depois, falou em inglês a doutoranda Magdalena Edwards, da University of California – Los Angeles, com o trabalho ‘Textual Encounters with the “Other”: Elizabeth Bishop as Clarice Lispector’s Translator’, em que analisou não apenas as traduções de Bishop para textos de Lispector, mas as opiniões da tradutora sobre a autora brasileira. Magdalena parece ser uma estudiosa muito séria e competente, uma promessa na área de teoria literária e literatura comparada.

Por fim, falou em francês a professora Maria Cláudia Rodrigues Alves, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ‘Panorama de l’oeuvre traduite de Rubem Fonseca en France’. São várias obras de Rubem Fonseca publicadas em francês, e no panorama foram discutidos rapidamente alguns aspectos das traduções e inclusive as opções editoriais pelas capas. Durante a palestra, ela distribui o seguinte hand-out, muito bonito e interessante.

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Para terminar a sexta-feira, assisti a uma interessante sessão do Simpósio Globalizaton.com.

Kathleen L. Komar, da University of California – Los Angeles, apresentou o interessante trabalho ‘Technologically Assisted Literature from Hyper-Text to Cybernetic Poetry’, que decidi abordar em um post separado. Aliás, todas as apresentações a que assisti de professores e alunos da UCLA foram muito boas, deu vontade de conferir o programa de Teoria Literária e Literatura Comparada deles).

Em seguida, falou a brasilianista Margaret Anne Clarke, da University of Portsmouth, com a palestra: “Beyond Reader and Author: the Metamorphoses of Hypertext Narrative”, preocupada com a retórica e a estética da revolução digital. Quais seriam as fronteiras entre o que apreciamos esteticamente ou não? A tecnologia nos força ainda outras questões, como: o que é uma história? O que é uma narrativa? Ou mesmo: o que é um autor? No caso da ficção hipertextual, muitas vezes mais de uma pessoa produz a história. Para Margaret, a estética digital deve envolver a interação entre autor e leitor.

Por fim, falou Stephan Packard, do Ludwig-Maximilians-Universität München, com o trabalho “Material Genotext in Practice, Categories of Digital Transtextuality”. Ele desenvolveu inicialmente o conceito de ‘multiple encoding’, já que o texto digital possui vários níveis de codificação. Alografia e traduções seriam exemplos mais simples de codificação múltipla. Em seguida, ele explorou os conceitos de Opacidade x Lucidez, já que seria possível ler (ou não ler) os diversos códigos do texto eletrônico. Por fim, ele propôs o conceito de ‘rival interpretant’, pois a leitura dos diferentes níveis do código do texto eletrônico possibilitaria diferentes níveis de interpretação. Durante a apresentação, Packard citou o Haiku Generator e o Dada Engine, que é capaz inclusive de produzir textos de crítica literária.

Aqui termina a minha ‘transmissão’ do congresso!!

Para concluir, criei um post para contar a diversão no Rio!

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12 respostas a XVIII AILC

  1. Pingback: De Mattar » Changing Modes of Reading: Comparativism praxis in the Digital Age

  2. Wanderlucy disse:

    Obrigada, João, pela oportunidade de sentir-me quase participando presencialmente deste congresso!
    Eu teria muitas coisas a comentar de seu longo post, mas vou ater-me a dois pontos que, em especial, chamaram-me a atenção:
    1. Também me sinto bastante incomodada com problemas freqüentes em congressos, como a ausência injustificada de palestrantes, entra e sai de pessoas na platéia e apresentações monótonas, lidas de ponta a ponta, sem nenhuma interação com o público. Sobre os buracos deixados nas sessões por conta da ausência de palestrantes, alguns congressos, como os da ABED, tem buscado maior rigidez na confirmação da participação, além de punição aos ausentes. Agora em setembro, vamos observar em Curitiba, se tais medidas funcionam efetivamente.
    Quanto ao entra e sai das pessoas, acho que se trata sobretudo, de falta de educação. Talvez os organizadores dos eventos pudessem divulgar mais esse problema e inibir a movimentação por meio de funcionários na entrada das salas.
    O terceiro ponto destacado – apresentações feitas por meio de leitura sem interação – é uma questão de estilo. Pode ser monótono, antiquado e nada agradável, mas já vi muita gente competente que adota tal método.
    Para finalizar, achei interessantes suas observações sobre a interatividade com o público apontada no trabalho de Jeffrey Di Leo. Lembrou-me romances novelescos como o “Memórias de um sargento de milícias”, cujos capítulos saíam no jornal e só no final juntava-se tudo e lançava-se um livro. A tv, sobretudo por meio de seriados norte-americanos, tem utilizado cada vez mais a interatividade com o público. A popularização da literatura e de seus autores parece-me algo inevitável, uma questão de sobrevivência.

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  7. Isabella disse:

    Caro Mattar,

    Obrigada pela referência à minha apresentação. Espero que você tenha gostado. Como um dos comunicadores da nossa sessão faltou, eu pensei que Izabella (Kessler) e eu poderíamos ter o tempo total dividido entre nós, e então eu teria tido a oportunidade de pontuar algumas coisas do Gibson também.

    Fica para uma próxima.

    Descobri seu blog só hoje, revisando as referências à minha produção na rede. Vou voltar a ele, pois o congresso foi enorme, e não pude asssitir a nem um décimo do que planejava.

    Parabéns,

    Abraço,
    Isabella Vieira de Bem

  8. João Mattar disse:

    Oi, Isabella, prazer tê-la por aqui! Eu não conhecia os textos que você abordou na palestra (que, aliás, programei para ler assim que possível), mas me interesso pelo tema dos “pós”.
    O Congresso foi grande mesmo e teremos agora em Julho o evento da ABRALIC, em São Paulo, do qual infelizmente não poderei participar porque estarei viajando.
    Vamos nos falando! Feliz 2008 para você!!

  9. gaucho disse:

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    abraço

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