O CONCEITO DE TURMA EM EaD: SANGUE LATINO

Ouvi recentemente o Diretor de um Departamento de EaD dizer mais ou menos o seguinte: os americanos não compreendem o conceito de turma em educação a distância. Eles sempre me perguntam: mas por que vocês precisam trabalhar com essa idéia de turma em EaD? Qual o sentido disso?

Segundo esse mesmo Diretor, o conceito de turma em EaD seria uma criação dos latinos, esse povo que precisa estar próximo, que é mais sensual, que gosta de cerveja, futebol, mulher e carnaval (essa metáfora foi usada por ele). O espírito latino teria inventado o conceito de turma em EaD, e por isso os americanos não o compreenderiam.

Essa grande “descoberta”, provavelmente, serviu como fundamento pedagógico para que esse Diretor implementasse um Projeto de EaD em que não há limite no número de alunos por turma: podem ser 100, podem ser 200, podem ser 300, podem ser 400… E o programa foi implementado no Brasil, traindo o espírito latino e obedecendo ao espírito norte-americano.

A avaliação parece-me completamente equivocada.

Em primeiro lugar, o conceito de turma em EaD não é uma invenção latina. Qualquer pesquisa rápida na bibliografia técnica sobre educação a distância mostra que isso não é verdade: existem turmas em EaD pelo mundo todo, desde os Estados Unidos até a Austrália, na Ásia e na Europa. Nem mesmo Skinner, Piaget ou Vygotsky diziam isso!

Mas existem, também, Projetos de EaD que não utilizam a noção de turma. Quais são as diferenças, então?

Eu já cursei mais de uma disciplina na Universidade de Berkeley, quando a internet já era intensamente utilizada como mídia em EaD. A coisa funcionava assim: eu me matriculo, recebo pelo correio o material (que inclui apostila, livros, vídeos, CDs etc.), estudo sozinho, mando as atividades para o meu professor (na época, por correio), ele corrige, me devolve, e, até o final do prazo para conclusão do curso, tenho que fazer uma prova presencial. Ou seja, eu não interajo com aluno nenhum, não conheço nenhum aluno, estudo independentemente e individualmente, solitariamente. Os prós e contras desse método podem ser questionados, mas, de qualquer maneira, neste caso, não existe realmente o conceito de turma. Não existe nem mesmo a idéia de que o curso tenha que começar em determinada data e terminar em outra, nem que as atividades tenham que ser entregues em datas específicas: o aluno se matricula no curso quando desejar, segue o ritmo de estudos que quiser, e o professor é remunerado pelo número de alunos que estão cursando a disciplina, afinal de contas seu trabalho é simplesmente corrigir as atividades individuais dos alunos, dar uma nota e devolvê-las para eles. E, no final, corrigir uma prova. Ou seja, quanto mais alunos, proporcionalmente mais trabalho, e portanto maior a remuneração.

Ora, mas esse não é o único modelo de educação a distância que existe nos Estados Unidos, que justifique eles acharem que o conceito de turma em EaD é uma invenção latina. Existem sim cursos a distância, nos Estados Unidos e nos outros cantos do mundo, que se utilizam de turmas. O que ocorre, nesses casos? Além da possibilidade de propor também atividades individuais, são propostas uma série de atividades interativas, como fóruns, chats, trabalhos em grupo etc. Aqui, o conceito de turma faz todo o sentido: as aulas precisam começar no mesmo momento, têm um prazo específico de duração, muitas vezes há datas específicas para a entrega das atividades, o professor funciona como um facilitador do aprendizado e um animador das atividades interativas, e sua remuneração é, quase sempre, vinculada ao número de turmas, não ao número de alunos.

Boa parte dos estudiosos de EaD defende a maior eficácia dos projetos que privilegiam as atividades interativas entre os alunos, o que não foi a opção do nosso Diretor, mas isso não vem ao caso, não importa para a nossa discussão.

A questão é que o nosso Diretor de EaD implementou seu Projeto sem conceber com clareza essas diferenças, e, como você imagina, deu pau! Não ficou nem latino nem americano, ficou talvez um casal de gringos tomando caipirinha no Rio, ninguém sabe ainda ao certo se ficou alguma coisa.

As “turmas” (que não deveriam mais ser turmas, porque não queremos mais ser latinos!) têm 100, 200, 300, 400.. alunos, com a programação de algumas atividades individuais, mas também algumas atividades interativas, como a criação de fóruns. Todas elas com datas específicas de entrega. Mas logo no início, percebeu-se que alguma coisa estava errada: como há muitos alunos nas “turmas”, a orientação agora é que não se façam fóruns, para que os alunos não descubram a quantidade imensa de colegas que há nas turmas.

Além disso, esse programa foi implementado em uma universidade, para disciplinas que muitas vezes, antes, os alunos cursavam presencialmente. E para as quais, inclusive, pagam mensalidade. Só que, talvez porque não temos agora mais “turmas”, as aulas começaram um mês depois do previsto, e os alunos obviamente chiaram, porque pagaram um mês em que não tiveram aula. Eles não compraram um pacote de EaD, de uma disciplina, como no meu caso de Berkeley, em que eu podia começar e terminar quando quisesse. Eles compraram aulas por determinado período, mas não receberam educação em 20% do período que pagaram.

Ou seja, deu tilt! Temos turmas mas não temos! Não bateu o tempo com o pagamento, não bateu a previsão de realização de atividades interativas, precisamos esconder dos alunos o que está acontecendo, os professores não são remunerados por turmas (mas por uma quantidade x de alunos) e assim por diante. Modelos mistos são interessantes quando são planejados como inovação, não quando acontecem por erro de concepção.

Não é preciso dizer que, para a combinação funcionar, foi preciso abandonar não só as atividades interativas, como as ricas possibilidades de encontros presenciais durante o semestre (pois nem caberia em uma sala de aula), já que os alunos estudam presencialmente, nos outros dias, na mesma universidade. E foi também preciso retroceder, transformar as aulas que começavam a tomar uma tímida cara de multimídia em simples arquivos pdfs. Era mais fácil, então, deixar os livros separados na biblioteca, os alunos fazerem as atividades e deixarem no escaninho do professor. O rico sistema utilizado na universidade passou a não ter função pedagógica. Talvez, no próximo semestre, já seja possível retroceder para a EaD por correspondência, com a vantagem de que não é preciso usar o correio. Talvez seja essa a direção da não-turma latina.

Foi também preciso forjar um tutor on demand, que ganha muito pouco, que não deve propor atividades complexas pois não é remunerado para corrigi-las, que deve evitar a todo custo a interação, enfim, um tutor o mais passivo possível. Quase um robô, não um guia para o aprendizado.

Lembrei-me da canção dos Secos e Molhados:

Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida meus mortos meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minha alma cativa
Rompi tratados traí os ritos
Quebrei a lança lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido

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10 respostas a O CONCEITO DE TURMA EM EaD: SANGUE LATINO

  1. adalberto disse:

    Meus caros amigos, não pretendo desviar o que tem sido tema central destes comentários, mas, complementando: observo que mutatis mutandis, todos os desatinos que vêm acontecendo na EaD têm seus equivalentes na Educação Presencial.

  2. sonia regina zorzi disse:

    João, parabéns pela sua análise. Realmente quando compramos cursos a distância, temos uma orientação, um tempo para realização dos trabalhos e a interatividade é com o nosso orientador.
    Acredito que a Universidade precisa repensar o seu modelo e que esse diretor precisa conhecer um pouco mais de EaD., pois o meu sentimento é que não conhece nada de EaD, bem como de Planejamento Estratégico e Administração.

    Abraços

    Sonia Regina Zorzi

  3. Edmundo disse:

    Caro Mattar, parabéns pela análise e profundidade em que analisa esta questão, uma pequena contribuição:

    Além dos conceitos equivocados do EaD, um movimento tropicalista, mal orquestrado e com acordes desencontrados nos conceitos e principalmente desprezando a experiência dos que fazem, até de seus professores, e acreditando que o “jeitinho brasileiro” substitui o conhecimento das instituições que já o fazem na Europa e EUA, vejamos:

    1o.Internet no Brasil, apesar do imenso acesso a rede mundial, ressalto que em sua maioria mais de 80% são de empresas; e que, as empresa já estão restringindo o uso pelos seus funcionários;

    2o. que a penetração de computadores nos lares é de apenas 19.5%, veja um equivoco da estatistica -qualquer computador, qualquer “lentium” com uma leve lembrança é considerado ” posse de computador” nas estatisticas;

    3o.Para os jovens de 13 a 22 anos (que apenas 18% tem acesso no Brasil segundo o IBGE) é uma fonte de entretenimento em que não há o comprometimento e compromisso com o que expõe em seus blogs, orkuts, msns, páginas e valorizando o grande diferencial da rede: a diversão acima da informação. Como esperar uma atitude espartana dos alunos em seus estudos???

    4o.Online com multidão, tem algum sentido?? estes mesmo jovens tem cadastros de centenas de “amigos” no orkut, conseguem de fato interagir com eles?

    Forte abraço,

  4. Wanderlucy disse:

    Excelentes as suas observações, Edmundo. Essa questão da interpretação tendenciosa de dados levantados é muito séria. Gera informação enganosa.
    A internet pode causar a falsa impressão de que ela sozinha tem o poder de mudar nossa realidade de educação precária. Ela, sem dúvida, é um instrumento com forte potencial de mudanças dessa realidade, mas para tanto é preciso que seja feito um trabalho muito sério, com muita base, muita pesquisa e muita vontade de melhorar as coisas por parte dos educadores e demais envolvidos.

  5. João Mattar disse:

    Caros:
    Tenho refletido bastante sobre a palavra para turma em inglês.
    Em primeiro lugar, “class” tem esse sentido de turma. Tem também o sentido de sala de aula, espaço físico, ou mesmo de aula (o que também a palavra lecture tem), mas tem um outro sentido que equivale ao de “turma” em português. Assim é utilizado em textos sobre EaD.
    Em Teaching and Learning at a Distance, aparecem as expressões “distance educationl classroom” e “virtual classroom”, que apontam não para o espaço físico ou tecnológico de uma sala de aula virtual, mas ao que nos referimos quando usamos a palavra ‘turma’ em português.
    Outras palavras, que de qualquer maneira correspondem também à idéia de turma, em inglês, são team, group ou community (‘community of learning’ é uma expressão bastante comum em inglês).
    Mas, independente do significante, o significado de ‘turma’ existe nas duas línguas, e com uma correspondência semântica muito forte. Repare um pouco mais.
    Na p. 40 de “O Aluno Virtual”, ocorre a expressão “diálogo realizado em uma turma de pós-graduação” – precisa checar então no original o que está escrito, e se o tradutor fez algum exercício de transcriação, no sentido sugerido pela teoria da poesia concreta, ou simplesmente usou em português uma palavra ou expressão que serve para traduzir o conceito expresso originalmente em inglês.
    No Prefácio do mesmo “O Aluno Virtual”, Palloff e Pratt afirmam:
    “O foco do livro é primeiramente a aprendizagem em turmas, isto é, alunos que começam e terminam juntos um curso durante um trimestre, um semestre ou um seminário elaborado de acordo com a conveniência do professor e dos alunos. Chegamos à conclusão de que as dicas que utilizamos para a construção dessa comunidade dificilmente podem ser implementadas em outra espécie de agrupamento, tais como aqueles da educação continuada, em que os alunos começam e terminam seus cursos em épocas distintas. [...] Também achamos que as necessidades dos alunos da chamada educação continuada são diferentes – em geral buscam a maneira mais rápida e fácil de finalizar os créditos para a certificação e afins, sem preocupar-se com o nível de interação que um aluno de graduação ou pós-graduação ou mesmo o empregado de uma empresa buscaria.” (p. 15)
    Não sei qual é a expressão utilizada, em inglês, para “aprendizagem em turmas”, mas seja qual for, a questão é que está mais do que claro que o conceito de turma não é um conceito que existe apenas em português, ou esteja relacionado à cultura latina – ele tem lugar muito claro na língua inglesa, tem tanta importância, aliás, que é o foco de um livro importante sobre EaD, escrito originalmente em inglês.
    Mas fica também claro, na citação, que o conceito de turma tem sentido para um tipo de EaD (como eu já tinha dito por aqui) que, segundo os autores, é o modelo mais adequado para alunos de graduação e pós-graduação, porque eles buscam interação no ensino superior. Porque a interação é um componente essencial na EaD.
    Então, em primeiro lugar temos que reconhecer que existe o conceito de turma em inglês.
    E, em segundo, que, por causa dessa confusão conceitual, foi elaborado um projeto falho, que supostamente não criou turmas (ou seja, não criou interação adequada) para alunos que começam e terminam os cursos no mesmo momento – ou seja, um dos critérios justamente para definir uma turma, e que, aliás, já estão presentes fisicamente na universidade – não são alunos basicamente virtuais, e que, por isso mesmo, como diz a citação, buscam também interação.
    Prestar um pouco de atenção nos alunos, considerá-los pessoas e não simples números, pressupõe a idéia de turma, e ainda mais, a preocupação, por parte do professor e da instituição, em utilizar técnicas pedagógicas para buscar fazer com que a turma funcione como uma unidade, e não como um mero grupo de pessoas independentes e que não se falam, ou falam muito pouco.

  6. É lamentável como alguns conseguem oferecer intrumentos para quem não acredita em trabalhos responsáveis com EaD.

    Por outro lado, fico feliz por ter a minha formação nesta área orientada por acadêmicos competentes e responsáveis, participando em vários projetos e disciplinas onde houve a participação dos estudantes, troca de idéias (interação, comunicação, colaboração, cooperação) e de experiências que resultaram em conhecimento e em habilidades complementares ao conteúdo das disciplinas cursadas.

  7. Caro João Mattar,

    Parabéns pelo artigo, pelas análises, pela oportunidade de conhecer suas idéias e por este espaço maravilhoso que é teu Blog.

    Realmente, americanos não compreendem os latinos. Na verdade, americanos só compreendem americanos… americanos só compreendem a palavra ‘lucratividade’. Enquanto, nós educadores latinos falamos em ‘Educação Libertadora’, ‘Sócio-Interacionismo’… os americanos falam em ‘Estudo Dirigido Individualizado’, ‘E-learning’ etc.

    Sabe João, eu continuo batendo na mesma tecla, e meu piano vai ficando “gasto” (hehehe)… que eu considere EaD (Educação) e não somente EaD (Ensino) mediado por tecnologia. Mas, não abro meu conceito de “Turma” por nada deste mundo. Não abro mão dos meus idéias de que um BOM EaD deva garantir: [A] interatividade; [B] interação de conhecimentos (tácito e processual); e, [C] interação sócio-virtual.

    Falando em Interação Sócio-Virtual, estou começando a pesquisar redes sociais acadêmicas… tem um webdesigner e programador tentando formalizar este projeto envolvendo Design Participativo, Aprendizagem Colaborativa, Peer Review (colaboração na revisão pelos pares), Blog/Fórum/Comunidade virtual etc… se Deus me ajudar, espero poder escrever sobre isso em meu Mestrado.

    Abraços,

  8. Joao Mattar disse:

    Pedro, o prazer é todo nosso de poder ler seus comentários por aqui. A coisa tá feia mesmo, mas não é só na EaD. Acho que é importante abrir o foco, porque o problema é na educação brasileira como um todo, e é um problema histórico: começamos muito tarde.

  9. João Mattar disse:

    Outro dia ouvi uma nova ironia: vocês precisam ir para a Inglaterra, para ver como é a EaD por lá. Ora, se a referência é à Open University, e o modelo fordista de que fala Otto Peters (e que venho comentando aqui no fórum), o equívoco conceitual continua, é mais uma vez reforçado. A Open University britânica foi fundada em 1969, antes da Internet, e adotou o modelo de ensino de massa, por correspondência e com pouca interação. A Internet nos trouxe incríveis possibilidades para a interação, além de que, aqui, os alunos estão em uma universidade presencial, e fazem apenas uma ou outra disciplina a distância. Ou seja, o tempo e o lugar para se adotar um modelo da Open University estão inadequados. E mais: não foi exatamente este o modelo adotado; foi, como eu disse, um modelo misto, mas misto por estar equivocado, mal concebido conceitualmente, não por ser criativo e inovador. Deu no que deu: alunos e professores reclamando, porque o sistema não funciona. Mas o departamento não tem absorvido as reclamações: ou são de professores incompetentes ou ocupados, exceções, ou de alunos também exceções, ou então os alunos só reclamam, reclamam muito, é o que se diz. Não é fácil admitir que a coisa está errada desde o início, que os princípios adotados estão furados.

  10. Pingback: De Mattar » Paulo Freire e a EaD

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