Marxismo e Crítica Literária

Este post é baseado em:

EAGLETON, Terry. Marxism and Literary Criticism. New York: Routledge, 2002.

O curto livro menciona vários autores, como Karl Marx, Frederick Engels, Georg Lukács, Lucien Goldmann, Pierre Macherey, Lenin, Trotsky, Walter Benjamin e Bertolt Brecht. Nesta resenha, na maior parte dos casos não mencionei os autores, procurando tentar abarcar uma visão geral sobre a crítica literária marxista. Mas vale a pena a leitura levando em consideração a associação de ideias particulares aos autores.

Inicialmente, pode-se dizer que a crítica marxista analisa a literatura em função das condições históricas que a produzem, mas devendo também estar ciente de suas próprias condições históricas, enquanto crítica. Esse tipo de crítica procura compreender ideologias — ideias, valores e sentimentos — pelas quais os homens experimentam suas sociedades em diversos momentos. Algumas dessas ideologias, inclusive, podem estar disponíveis para nós apenas na literatura.

Entretanto, a crítica marxista não deve ser considerada apenas uma “sociologia da literatura”, pois direciona também sua atenção para as formas, os estilos e os significados da literatura, procurando também compreendê-las como produtos de uma história particular.

Seguindo os preceitos do marxismo, a crítica literária marxista compreende que as relações de produção determinam a consciência:

Essas “forças” e “relações” de produção formam o que Marx chama de “estrutura econômica da sociedade”, ou o que é mais comumente conhecido pelo marxismo como a “base” econômica ou “infraestrutura”. Dessa base econômica, em todos os períodos, emerge uma “superestrutura” – certas formas de direito e política, certo tipo de Estado, cuja função essencial é legitimar o poder da classe social que detém os meios de produção econômica. Mas a superestrutura contém mais do que isso: também consiste em certas “formas definidas de consciência social” (política, religiosa, ética, estética etc.), que é o que o marxismo designa como ideologia. A função da ideologia, também, é legitimar o poder da classe dominante na sociedade; em última análise, as ideias dominantes de uma sociedade são as ideias de sua classe dominante. (p. 5).

A arte, para o marxismo, faz parte da “superestrutura” da sociedade, ou seja, da ideologia. Entender a literatura, então, significa compreender o processo social total do qual faz ela parte, o grau em que incorpora a estrutura do pensamento (ou “visão de mundo”) da classe social ou grupo ao qual o escritor pertence.

Podemos enxergar a literatura como um texto, mas também como uma atividade social, uma forma de produção social e econômica. A literatura pode ser um artefato, um produto da consciência social, uma visão de mundo; mas também é uma indústria. Os livros não são apenas estruturas de significado, são também mercadorias produzidas por editoras e negociadas no mercado.

A arte, como qualquer outra forma de produção, depende de certas técnicas de produção. Essas técnicas fazem parte de suas forças produtivas, são o palco de desenvolvimento da produção artística, e envolvem um conjunto de relações sociais entre o produtor artístico e seu público. Assim, contra uma visão romântica do autor como criador, a crítica marxista propõe uma visão do autor como produtor.

A forma da obra literária seria o trabalho do conteúdo na esfera da superestrutura. Nesse sentido, a própria forma poderia ser considerada ideológica. Entretanto, as obras literárias não são meros reflexos de ideologias dominantes: o objeto de literatura é deformado, refratado, dissolvido.

O estruturalismo genético de Lucien Goldmann é apresentado como tendo interesse em como as estruturas foram se construindo historicamente.

O que Goldmann está buscando, então, é um conjunto de relações estruturais entre o texto literário, a visão de mundo e a própria história. Ele quer mostrar como a situação histórica de um grupo ou uma classe social é transposta, pela mediação de sua visão de mundo, na estrutura de uma obra literária. Para fazer isso, não basta começar com o texto e trabalhar para fora para a história, ou vice-versa; o que é necessário é um método dialético de crítica que se move constantemente entre texto, visão de mundo e história, ajustando cada um aos outros.

Há ainda uma vertente da crítica literária marxista mais focada na literatura voltada para o desenvolvimento social ou mesmo o proletariado.

Já a arte revolucionária não se proporia a transformar apenas o conteúdo, mas também os modos da produção artística.

Na década de 1980, a crítica literária marxista teria passado a perder terreno para o feminismo, pós-estruturalismo e, um pouco mais tarde, pós-modernismo. Para o autor, a questão de como descrever a relação na arte entre a “base” e a “superestrutura”, entre a arte como produção e a arte como ideológica, seria uma mais importantes que a crítica literária marxista teria agora a enfrentar.

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