Construir

Tive várias conversas com o Kelton nestes dias, que preciso registrar por aqui, mas não queria deixar passar esta reflexão.

Temos em português duas palavras, aprendizado e aprendizagem, e em inglês uma, learning. Como fica então a correspondência dos significados? Learning é também o gerúndio do verbo to learn, e estaria talvez então mais associada à idéia de aprendizagem, entendida como um processo. Mas o que seria então aprendizado? Parece algo mais estático, acabado, quase um objeto.

Eu usei sempre essas palavras em português com um pingo de incômodo, sem entender muito bem o porquê, mas hoje no nosso bate-papo ele me disse: learning tem um sentido passivo. É realmente desse sentido passivo que eu tento desesperadamente fugir, na minha filosofia e prática da educação.

Eu encaro a educação muito mais, e cada vez mais, como um processo de construção por parte do aluno. Em inglês, há as palavras build e construct. Conversamos que building tem mais o sentido de construir (tipo um prédio – um building), de montar alguma coisa com peças com formatos já prontos, tipo um lego. Nesse caso, há um limite para a construção, e a criatividade fica bloqueada. Construct, por outro lado, passa uma idéia de maior liberdade, de começar do zero e usar qualquer tipo de material, estando portanto mais associada à filosofia do construtivismo.

É inclusive por isso que tenho muita dificuldade em lidar com a idéia de learning outcomes – resultados previstos da aprendizagem no design de um projeto de curso. Se o resultado já está previsto, estamos mais para building um objeto já pré-programado. Eu enxergo a educação mais como um exercício de construct, em que nem o resultado final nem as ferramentas estão totalmente definidos, de antemão. O design se constrói também durante o próprio processo; o caminho e o processo não estão definidos de antemão.

Por isso também me incomoda a idéia de que a educação tenha que vir antes da tecnologia. A educação se faz no processo de construção, junto com a escolha e o uso de ferramentas. Quanto mais damos prioridade, temporal ou conceitual, à idéia da educação, mais tendemos para os learning outcomes pré-projetados, para os Planos de Ensino engessadores, para o impostutor. Conceitos que venho há bastante tempo criticando, e que, pela minha experiência, não funcionam na prática.

E o problema é que toda essa discussão tem um impacto direto e profundo nos critérios que utilizamos para analisar o aprendizado ou a aprendizagem (na verdade, estou à procura de outras palavras… Constructo?). Se você não tem um objetivo pedagógico pré-definido, no início do curso, não pode avaliar o “resultado” com uma prova. Teria que avaliar o processo e o constructo, mas sem usar como parâmetro onde você gostaria que o aluno chegasse, o objeto que gostaria que ele construísse. Ou seja, os próprios critérios de avaliação precisam ser negociados no próprio processo de construção.

Educar é então isso: começar uma viagem de construção, sem uma direção rígida definida, em que tudo precisa ser construído – inclusive as maneiras pelas quais os alunos serão avaliados. Fica tudo mais complicado!

Pensando no aluno adulto, que em geral trabalha e tem pouco tempo para estudar, temos então que levar em consideração:

a) a educação deve ser encarada como um processo de construção de conhecimento;

b) o aluno deve participar de decisões referentes ao seu processo de construção de conhecimento e inclusive dos critérios pelos quais será avaliado;

c) devemos solicitar que ele realize atividades apenas quando importantes para esse processo de construção, ou seja, não devemos solicitar atividades desnecessárias, só para fingir que ele está estudando, para ocupá-lo; no fundo, o próprio aluno deve escolher quais atividades deseja realizar;

d) todas as atividades solicitadas, assim como o processo de construção do conhecimento, devem ter rapidamente feedback do professor, ou seja, são inadmissíveis atividades para as quais o aluno não recebe uma devolutiva, e rápida.

Deve ter mais coisas, vou acrescentando com calma.

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4 respostas a Construir

  1. Eri disse:

    Eh isso aí João. suas idéias, principalmente esse final sobre educação de adultos me faz lembrar colaborações do Carl Rogers para a sala de aula. Grande sujeito!!! Gosto muito de suas idéias.
    A máxima de sua pedagogia é “ninguém ensina ninguém” . O aluno deve ter total liberdade para escolher as atividades que ele julga relevante para suas necessidades.
    Isso que vc falou tb vai ao encontro da proposta de DI da Collins, nao é?

  2. João Mattar disse:

    A proposta da Collins parte dos Learning Outcomes (LOs) para fazer o design de trás para frente. Eu questiono um pouco essa fixação nos LOs.

  3. Daiana Trein disse:

    Acho que essa total liberdade é bastante questionável.. imagina isto na prática? Sou contra os currículos fechados e a hierarquização em sala de aula, mas também não acho que esta abertura total, na prática teria bons resultados.

    Acho que a metodologia de projetos de aprendizagem baseados em problemas (Léa Fagundes), surgem como uma alternativa… entre o 8 e o 80, eu fico com o 40 rsrs

  4. João Mattar disse:

    Daiana, eu realmente tenho muitas dúvidas de que se trate aqui de total liberdade. Para falar a verdade, penso que tenho que alcançar ainda muito mais liberdade do que isso.

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