As Origens do Pensamento Grego – Jean-Pierre Vernant

VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges B. da Fonseca. 3. ed. São Paulo: Difel, 1981. Resenha de João Mattar.

Reli este livrinho, um clássico do especialista francês na Grécia Antiga, que procura relacionar o surgimento da filosofia com o surgimento da pólis grega. Ele está dividido assim: Introdução, Capítulo I. O quadro histórico, Capítulo II. A realeza micênica, Capítulo III. A crise da soberania, Capítulo IV. O universo espiritual da Polis, Capítulo V. A crise da Cidade. Os primeiros sábios, Capítulo VI. A organização do cosmos humano, Capítulo VII. Cosmogonias e mitos de soberania, Capítulo VIII. A nova imagem do mundo e Conclusão.

Depois de Creta, Vernant destaca a importância do desaparecimento do Rei Micênico, que desempenhava uma multiplicidade de funções, e toda a estrutura social que o envolve, ao contrário do que ocorre no Oriente. Com a invasão dórica e o mundo homérico, não há mais traços do controle do rei. Surge um espaço social novo, não mais agrupado em torno de um palácio real cercado de fortificações; a cidade está agora centrada na Ágora, espaço comum e público em que são debatidos problemas de interesse geral:

“É a própria cidade que se cerca de muralhas, protegendo e delimitando em sua totalidade o grupo humano que a constitui. No local em que se elevava a cidade real – residência privada, privilegiada -, ela edifica templos que abre a um culto público. Nas ruínas do palácio, nessa Acrópole que ela consagra doravante a seus deuses, é ainda a si mesma que a comunidade projeta sobre o plano do sagrado, assim como se realiza, no plano profano, no espaço da Ágora. Esse quadro urbano define efetivamente um espaço mental; descobre um novo horizonte espiritual. Desde que se centraliza na praça pública, a cidade já é, no sentido pleno do termo, uma polis.” (p. 33).

A escrita, que também desaparece, voltará mais tarde diferente, fonética, influenciada pelos fenícios.

Vernant explora então o poder da palavra. Peithó significa persuasão, debate, discussão e argumentação. A política é associada ao lógos. Vernant lembra ainda da importância da publicidade, da escrita e da redação das leis na pólis. Mas, de outro lado, explora também a ligação entre as sociedades secretas e a filosofia:

“A filosofia vai encontrar-se, pois, ao nascer, numa posição ambígua: em seus métodos, em sua inspiração aparentar-se-á ao mesmo tempo às iniciações dos mistérios e às controvérsias da ágora; flutuará entre o espírito do segredo próprio das seitas e a publicidade do debate contraditório que caracteriza a atividade política. Segundo os meios, os momentos, as tendências, ver-se-á que, como a seita pitagórica na Grande Grécia, no século VI, ela organiza-se em confraria fechada e recusa entregar à escrita uma doutrina puramente esotérica. Poderá também, como o fará o movimento dos Sofistas, integrar-se inteiramente na vida pública, apresentar-se como uma preparação ao exercício do poder na cidade e oferecer-se livremente a cada cidadão, mediante lições pagas a dinheiro. Dessa ambiguidade que marca sua origem a filosofia grega talvez jamais se tenha libertado inteiramente. O filósofo não deixará de hesitar entre duas atitudes, de hesitar entre duas tentações contrárias. Ora afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado, e, tomando orgulhosamente a posição do rei-divino, pretenderá, em nome desse ‘saber’ que o eleva acima dos homens, reformar toda a vida social e ordenar soberanamente a cidade. Ora ele se retirará do mundo para recolher-se numa sabedoria puramente privada; agrupando em torno de si alguns discípulos, desejará com eles instaurar, na cidade, uma cidade diferente, à margem da primeira e, renunciando à vida pública, buscará sua salvação no conhecimento e na contemplação.” (p. 41-42).

A pólis instaura também a igualdade. O herói homérico, combatente individual, transforma-se no soldado-cidadão, que ocupa um posto, pertence ao grupo e se submete à disciplina.

Com a crise da cidade, ocorre a retomada e o desenvolvimento dos contatos com o Oriente, através do comércio marítimo, o que gera mudanças sociais. Ocorrerá assim uma renovação social, política e religiosa da pólis. Dike e Sophrosyne descem dos céus e instauram-se na Terra. Desenvolve-se também o pensamento moral e a reflexão política.

No início do século VI, com os pré-socráticos, desenvolve-se o conceito de physis. Vernant opõe a interpretação de Burnet para a transição mitos/logos, que defende a tese do milagre grego, à leitura de Cornford, que ressalta os pontos de contato da mitologia com a filosofia. E afirma:

“Entretanto, apesar dessas analogias e dessas reminiscências, não há realmente continuidade entre o mito e a filosofia. O filósofo não se contenta em repetir em termos de physis o que o teólogo tinha expressado em termos de Poder divino. À mudança de registro, à utilização de um vocabulário profano, correspondem uma nova atitude de espírito e um clima intelectual diferente. Com os milésios, pela primeira vez, a origem e a ordem do mundo tomam a forma de um problema explicitamente colocado a que se deve dar uma resposta sem mistério, ao nível da inteligência humana, suscetível de ser exposta e debatida publicamente, diante do conjunto dos cidadãos, como as outras questões da vida corrente. Assim se afirma uma função de conhecimento livre de toda preocupação de ordem ritual. Os ‘físicos’, deliberadamente, ignoram o mundo da religião. Sua pesquisa nada mais tem a ver com esses processos do culto aos quais o mito, apesar de sua relativa autonomia, permanecia sempre mais ou menos ligado.” (p. 76-77).

Se de um lado a filosofia mantém, inicialmente, a forma dos mitos, de outro lado ela assume o conteúdo da pólis. Ocorre assim a dessacralização do saber, o advento de um pensamento exterior à religião. Mantendo as características dos mitos ligados ao rei e ao deus ordenador, a filosofia acompanha a racionalização e racionalização da vida social.

Vernant estuda então Anaximandro e o conceito de arché, e explora a relação entre o espaço político e o cosmos (astronomia).

A filosofia estaria, portanto, determinada pelo nascimento da pólis. A noção de experimentação, entretanto, era ainda estranha aos primeiros gregos. Assim Vernant encerra seu livro:

“A razão grega não se formou tanto no comércio humano com as coisas quanto nas relações dos homens entre si. Desenvolveu-se menos através das técnicas que operam no mundo que por aquelas que dão meios para domínio de outrem e cujo instrumento comum é a linguagem: a arte do político, do retor, do professor. A razão grega é a que de maneira positiva, refletida, metódica, permite agir sobre os homens, não transformar a natureza. Dentro de seus limites como em suas inovações, é filha da cidade.” (p. 95)

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2 respostas a As Origens do Pensamento Grego – Jean-Pierre Vernant

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