Para que servem as Ciências Humanas?

Stanley Fish, professor e crítico de destaque nos Estados Unidos, cujo novo livro sobre educação superior, Save the World On Your Own Time, está para sair (e assim que sair pretendo resenhá-lo por aqui), escreveu um polêmico artigo no início de Janeiro no New York Times, Will the Humanities Save Us?, cujo tema me interessa bastante. É, aliás, o tema de um livro que espero publicar logo com a Regina e a Wanderlucy. Portanto, vou aqui ao mesmo tempo comentar o artigo e refletir sobre outros pontos não tratados diretamente por Fish.

Qual seria a justificativa para financiar as artes e as humanidades?

Fish menciona no seu artigo um livro recente de Anthony Kronman, Education’s End: Why Our Colleges and Universities Have Given Up on the Meaning of Life, que já coloquei no meu carrinho da Amazon. Para Kronman, antigamente não era necessário justificar o financiamento para as artes e as humanidades, porque se pressupunha que uma universidade era, acima de tudo, um lugar para treinar o caráter, para desenvolver hábitos intelectuais e morais para a vida. Isso requereria a imersão nos grandes textos de literatura, filosofia e história. Para Kronman, apenas as humanas podem enfrentar a crise de espírito que vivemos hoje, em função dos privilégios concedidos às ciências e à tecnologia. As humanas estariam associadas com significado, o que faltaria ao mundo contemporâneo. Expor os alunos a textos com múltiplas visões sobre o mundo, muitas vezes contraditórias, significaria aperfeiçoar a condição humana.

Entretanto, o que vemos hoje é que as ciências humanas são sempre o primo pobre da educação, ou seja, sempre as últimas a merecerem investimentos. A transformação de uma série de disciplinas de humanas em curso de educação a distância com o mínimo de interação entre alunos e professores, e provas finais em formas de testes no computador, que estamos vivendo no Brasil, e inclusive a exclusão de diversas disciplinas de humanas dos currículos, com a transformação dos currículos mínimos em diretrizes curriculares, são um bom exemplo do valor que damos para essas disciplinas. As discussões, os debates, a reflexão em grupo, são todos ignorados, não sendo considerados essenciais na formação de um profissional que não seja de humanas.

De quem seria a culpa? Os inúmeros comentários ao artigo de Fish tentam dar algumas respostas. Os departamentos de humanas teriam feito um mal trabalho (e com isso é preciso concordar, principalmente no sentido de terem se mantido muito descontectados das outras disciplinas); nossa cultura não privilegia, hoje, o aprendizado para o aperfeiçoamento do ser humano; as universidades estariam obcecadas com dinheiro, e não com a obrigação de produzir cidadãos; etc.

Mas há visões opostas sobre a questão. Para alguns, as prioridades para outras áreas, que não as humanas, deveriam ser mantidas. Um comentário ao texto de Fish diz: “Quando um poeta criar uma vacina ou um bem tangível que possa ser produzido por uma empresa Fortune 500, eu revogarei meu comentário.” Ora, obviamente não é função de um poeta produzir uma vacina. Mas a questão mais importante não é essa, e sim se o julgamento das ciências humanas deve ser feito em função de vacinas, de bens tangíveis ou da Fortune.

Fish questiona: as humanas realmente enobrecem? Ou seria sua função nos salvar?

Então ele usa uma série de argumentos bastante discutíveis: as humanas não conseguem se sustentar sozinhas; a economia não se beneficia de uma nova leitura de Hamlet; e um aluno que conheça a história bizantina não será atrativo para os empregadores (a não ser que seja esse empregador seja um museu). Argumentos muito frágeis, fracos. Seria necessário refletir com calma o que significa uma ciência se sustentar sozinha; as humanas não produzem apenas novas leituras de Shakespeare nem estudam apenas história bizantina; mas o que realmente parece pautar as conclusões de Fish é o mercado, os empregadores (que não sejam museus). Parece-me que a questão é bastante mais ampla e complexa.

Humanas não produzem também somente erudição. Eu apresentei um trabalho na Convenção da MLA – Modern Languages Association, em 1999, entitulado: “Philosophy and Literature Students make very good Business and Administration Professionals”, que logo vou postar por aqui. Defendo (pela minha própria formação) que o estudo das ciências humanas desenvolve algumas habilidades que não são desenvolvidas igualmente por outras disciplinas, e que essas habilidades podem ser, sim, muito úteis para o mercado, para as empresas, para a administração etc. Estudantes de Artes, Filosofia, Literatura e Humanas em geral podem se tornar administradores muito bons, melhores inclusive em vários sentidos do que estudantes de administração. É um caminho muito bonito e produtivo a complementação de estudos de humanas com estudos de administração, uma pós-graduação lato-sensu, por exemplo.

Não se trata aqui de acreditar que lendo um romance clássico nos tornamos seres humanos mais completos, o que seria, para Fish, negado pelo fato de, nos departamentos de Letras e Filosofia, não temos seres humanos mais íntegros do que nos outros (o que aliás, uma amiga minha, estudante de filosofia e casada com um professor de filosofia, defende com veemência). Para Fish, o que professores e alunos de literatura e filosofia sabem fazer, é analisar efeitos literários e distinguir entre diferentes teorias sobre os fundamentos do conhecimento. Sem dúvida, o estudo das humanas produz muito mais, mas que seja apenas isso, já se desenvolvem aqui habilidades paralelas (como saber lidar com textos, com o discurso, com a linguagem, com a comunicação etc.), o que é essencial para um administrador, por exemplo (e, é bom que se diga, os currículos de administração não privilegiam a maestria no uso da linguagem).

Como Fish mesmo diz, professores de literatura e de filosofia não são competentes em um ministério, não têm a função de nos tornar seres humanos mais puros, e a função das humanas não é nos salvar. Mas isso não significa que o estudo das humanas não produza nenhum efeito no mundo, que se resuma a um conhecimento disciplinar, a um prazer que pode nos oferecer.

Para Fish, a única resposta à questão “qual o uso das humanidades?” é: nenhum, pois as humanas não são instrumentais. Realmente, as humanas são bem menos instrumentais que as ciências exatas ou biológicas, mas isso não nos obriga admitir que elas não sirvam para nada. Enfim, uma discussão em aberto, à qual pretendo voltar, inclusive porque foi tema de um curso que dei no semestre passado, e que devo dar de novo no próximo semestre.

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4 respostas a Para que servem as Ciências Humanas?

  1. Wanderlucy disse:

    O texto de Fish supervalorizando as ciências exatas em detrimento das humanas parece-me um tanto ultrapassada, já que o livro As Duas Culturas de Snow, publicado na década de 50, já discute a contraposição estúpida entre ciências humanas e exatas, defendendo que o mais coerente e construtivo para nossa sociedade e para o planeta é a junção entre as duas áreas, ao invés de perdermos tempo com essa “guerra”. Além disso, a enorme quantidade de comentários rechaçando o posicionamento de Fish nos faz acreditar que ele está sozinho em seu raciocínio.
    No entanto, a realidade dos dias de hoje nos faz crer que é preciso nos voltarmos de forma séria a essa discussão, pois, conforme aponta JM, as instituições de ensino superior vêm deixando claro, por meio de suas medidas com relação a alterações nas estruturas curriculares de seus cursos, que Fish decididamente não está sozinho.
    O mundo está mudando e, viver nele esteja se tornando cada vez mais difícil se levarmos em conta o surgimento de epidemias, as conseqüências cada vez mais presentes do aquecimento global e o aumento da população, além da aproximação da escassez da água potável.
    Tais problemas, somados aos avanços da tecnologia que nos bombardeia com informações e novas formas de comunicação que não temos tempo de assimilar, têm nos levado a um comportamento imediatista perante o nosso dia-a-dia e nossa forma de ver o mundo que nos cerca, trazendo à tona o pior de nós, como toda sorte de comportamento egoísta, desprezando o sofrimento e, principalmente, a opinião do próximo a respeito de qualquer questão.
    Valorizar as ciências exatas e sua promessa de solução para os problemas atuais, a primeira vista parece óbvio.
    É natural que um estudante de primeiro ano de faculdade nos pergunte indignado diante dos conteúdos das disciplinas de Humanas “Para que estou estudando isso?”, pois ele não tem maturidade para entender quão complexas são as redes de conhecimento que nos fez chegar ao que somos hoje, ou ainda, talvez o professor da disciplina não esteja preparado para relacionar teoria e prática de forma imediata e constante. No entanto, ouvir tal questionamento de um pesquisador e de instituições que se dizem de nível superior é inaceitável.
    Parece-me tão indiscutível que sem as reflexões proporcionadas pelos estudos das ciências humanas não chegaremos a lugar nenhum! É necessária a conscientização de que problemas sérios como os citados acima requerem soluções complexas, lentas, que só poderão acontecer se unirmos forças de ambas as áreas.
    Claro que precisamos da tecnologia, hoje mais do que nunca, mas se ela não for desenvolvida com o conhecimento humanístico, ela trará soluções superficiais e sem efeito a longo prazo ou, ainda, com conseqüências funestas no futuro.
    Cabe à educação estimular debates em busca da necessária aproximação entre as áreas humanas e exatas, evitando que raciocínios como os de Fish continuem se propagando pelas grades curriculares dos cursos superiores.
    É preciso que os professores discutam entre si e sejam mais bem preparados para unir teoria e prática no cotidiano da sala de aula, e que os planos de ensino abandonem o ranço do eruditismo vazio que, de fato, não tem nada a ver com a urgência do mundo atual.
    A internet tem oferecido inúmeros recursos que podem facilitar, e muito, essa interação entre os educadores, como podemos ver aqui no blog do João Mattar!

  2. Wanderlucy disse:

    Observação: a resenha do livro de C.P. Snow – As Duas Culturas – pode ser lida aqui neste blog.

  3. Caro João, excelente reflexão acerca das humanidades. E com certeza devemos pensar a reflexão crítica não apenas pelo seu lado instrumental, capitalista ou de mercado. Porém, pensar a reflexão crítica no sentido de se construir alternativas para o mundo que vivemos ( e nem sei também se isso deveria ser a razão das humanidades) – já que deveria ser a razão da própria existência do Homem. Acredito piamente que a desvalorização das ciências humanas de forma geral está interligado com a imediatez do ensino universitário e com o perfil “prático” do profissional (mao-de-obra em massa) que está sendo exigido atualmente no mercado. Aqui me refiro não aquele que irá gerenciar ou encabeçar as ações, pois estes com certeza têm uma formação sólida; porém o mercado de trabalho de forma geral – aquele que irá ter uma função prática.
    É amigo……………até quando vamos formas profissionais que não pensam??????
    Abraços a todos,
    Regina

  4. anderson disse:

    para que serve ler um livro de literatura se sao historias inventadas e historias inventadsad são mentiras e mentiras são ruins não e mais importante a medicina que salva vidas , tenho 15anos e não entendo pra que cinemaq teatro literatura artes plastica com tantas desgraças no mundo sei la para que perder tempo com futebol novelas musica

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